Todas as mulheres. De todos os tempos: entre o mito a realidade. Das verdades às incertezas. Com ou sem respostas. Vidas partilhadas, tiradas, submetidas? Eis que falar sobre as mulheres acaba ganhando um pretexto: uma data. Marcada pelas próprias contradições e ciladas que datam de tempos e templos.
Projetadas no mito, nada a ver com as mulheres de Atenas, aludidas na canção do Chico.

Talvez as melhores respostas estejam em Hera, em Penélope: o mito das esposas. A primeira parece representar a simples esposa de Zeus, construída para se atormentar com as traições do marido. Está em Hera, depois em Juno, a necessidade de se construir uma sociedade em que coubesse à mulher o papel apenas das atividades consideradas femininas, como o casamento, o nascimento dos filhos, as tarefas domésticas, entre outras.

A segunda, Penélope, mulher do herói Ulisses, da Guerra de Tróia, narrado na Odisséia, de Homero, trata-se de uma mulher apaixonada e fiel ao seu marido, decidida a esperá-lo até a sua volta. Por longos anos, tecendo. Esperando. Esquecendo-se. Fidelizando a marca do mito: nada mais que um “recado” à formação de um modelo de sociedade predeterminada. E o papel das mulheres parece/parecia, então, consolidado.

Como se vê, essas duas mulheres integram parte da tradição ocidental, quando às mulheres alguns papéis ou deveres eram atribuídos: fidelidade, o sofrimento daí decorrente ante a infidelidade do marido, a procriação e educação dos filhos, além dos rituais domésticos.

Adentrando-se ao contexto, ainda da ficção, poderíamos contrapô-las à infiel e infeliz madame Bovary, uma problemática elaborada por Gustave Flaubert, que após concluir a sua obra foi acusado de ofensa à moral e à religião por abordar o adultério, as vontades, entendidas como caprichos femininos. Eis que prevalecia, ainda no século 19, a moral da predestinação da mulher para viver os valores furtados aos homens: a exclusividade da fidelidade, das vontades, dos desejos.

Ainda que não revelados.
Mas, embora acredite que a ficção sirva tão bem à reflexão sobre a realidade quanto a própria história, buscaria em Rosa Luxemburgo um exemplo circunstancial, pois que, em 1897, foi uma das primeiras mulheres a concluir o doutorado em ciências políticas, o que contribuiu para a sua militância política e participação social. Símbolo da resistência feminina, foi brutalmente assassinada a mando do governo social-democrata alemão. Parece que já não bastavam os filhos, as rezas, os afazeres domésticos para acomodarem tais criaturas. Era preciso, além da alma, tirar-lhes o corpo, caso necessário. Aliás, não sei se as mulheres, mesmo as do meu/nosso tempo, sabem ou podem decidir sobre os seus corpos.

Na verdade, o que busco com essas mulheres singulares é tentar chegar ao contexto atual. Ou seja, a construção da aceitação da mulher na sociedade integra a dificuldade em se lidar com um fator essencial: a igualdade genérica, a igualdade política. A igualdade, simplesmente. Se não há como separar o ser humano de sua totalidade, como garantir a distinção entre homens e mulheres, entre negros e brancos, entre pobres e ricos?

Certamente, pela submissão. Essa, por sua vez, faz-se acompanhar, desde sempre, ou desde o mito, por um discurso e por ações carregadas de ideologias. As crenças e os valores que melhor convêm aos homens, digo, aos que detêm a construção do modelo de sociedade que lhes interessa. Acredito, dessa maneira, que as bases de uma sociedade justa (e justiça é feminino) passa pelo aniquilamento total das desigualdades encobertas pela moral dos que desejam, de alguma maneira, ocultar suas fraquezas. Ou não? (Continua na edição de terça-feira).