Quando o verão acaba e  regresso à Florianópolis e ao corre-corre diário  deparo-me com uma agenda tão congestionada quanto o trânsito caótico da Ilha. Espio o Calendário pintado de vermelho para não esquecer nada, nem as datas memoráveis como o Centenário de nascimento da escritora Carolina Maria de Jesus  no  dia  14 de Março.
 
Como não homenagear a mulher negra com lenço na cabeça, maços de folhas de papel escritas, abraçados junto ao corpo esguio e altivo, o embrião do que seria seu primeiro livro “Quarto de Despejo. Diário de uma favelada”, publicado em 1960 pela Editora Francisco Alves, do Rio de Janeiro?  Ou, ainda, lembrar dos fragmentos do diário daquela humilde catadora de papel que a revista “O Cruzeiro” apresentava para todo o Brasil. Sim, Carolina Maria de Jesus, registrou em vinte cadernos recolhidos do lixo o que ouviu, presenciou, sentiu na carne, vivenciou na condição de mulher negra, migrante, mãe solteira e favelada. Cada linha, cada palavra mal desenhada refletia o universo de uma Literatura Marginalizada por estereótipos sociais e sexuais da sociedade dos anos sessenta.
 
Naquela década, marcada por tantas mudanças culturais e políticas, até a mulher branca nascida em berço de renda, criada entre almofadas de cetim na “sala de visita das cidades” tinha dificuldade de se realizar no mundo masculino das letras. Basta lembrar que o ingresso da primeira mulher na Academia Brasileira de Letras ocorreu em 1977, com a eleição da festejada cronista Rachel de Queiróz, rompendo o cerco dos homens da centenária Casa de Machado de Assis.
Descoberta por acaso, em 1958, pelo jornalista Audálio Dantas quando fazia uma reportagem sobre a vida miserável dos favelados do Canindé e foi surpreendido com os gritos de uma mulher que ameaçava seus vizinhos: “Deixa estar que eu vou botar todos vocês no meu livro”.   Carolina Maria de Jesus, 49 anos, mineira de Sacramento, num piscar de olhos, virou um fenômeno editorial. Em quatro edições desaguaram cerca de 100.000 exemplares, sendo traduzida para treze idiomas e lida em mais de cinquenta países. O livro virou um best-seller. Carolina virou uma estrela. Revolucionou o mundo das letras, conquistou escritores como Manuel Bandeira Clarice Lispector, Jorge Amado.
 
Nas entranhas do diário iniciado em 1955, o autorretrato da miséria humana expresso na cultura da escrita simples, na extraordinária narrativa da denúncia, forte, construída na primeira pessoa por alguém que é criador e criatura a imergir-se no cerne da marginalidade social de um Brasil invisível. Ali onde se escondia o lixo urbano se desvendava a alma da escritora e mulher. Nada mais verdadeiro, afinal a “literatura é usada para ver a alma” escreveu  Bernad Shaw (1856-1950).
Infelizmente, a glória da escritora foi efêmera e o sucesso literário que a  consagrou não voltou a se repetir. Morreu  pobre, quase anônima, em fevereiro de 1977 em São Paulo. Mesmo agora, quando se comemora o seu Centenário de Nascimento, ela continua desconhecida do grande público e, sobretudo, das novas gerações.  “Quarto de Despejo. Diário de uma favelada” transformou a vida da Carolina, provocou uma ruptura na sua trajetória migrante, mudou seu destino.
 
Teria mudado a sua sorte?