Sabe aquele dia em que você acorda e se sente infeliz porque as coisas não estão caminhando do jeitinho que você queria? Tipo aquele gato(a) não tá te dando mais bola depois de dois meses de investimentos maciços, aquele seu projeto que não foi aprovado, aquele carro… aff… Aquele carro maravilhoso não deu de comprar! Tempos difíceis, hein pessoa! Também acho!
 
Daí você se dói um monte e percebe que já está na hora de levantar e ir para o trabalho… e plim… milagre…. você levanta! As suas pernas obedecem ao seu comando cerebral e te dá o prazer de levantar e se espreguiçar sem a ajuda de ninguém, sendo que 28 milhões de pessoas no Brasil estão impossibilitadas disto ou com muita dificuldade de fazê-lo. Comece a pensar na felicidade das coisas simples e que você de fato está melhor do que eles. Agora o que fazer com esta informação?
 
A verdade é que 28 milhões de pessoas no Brasil têm algum tipo de deficiência. O número de pessoas com deficiências relativas ao problema específico de locomoção por impossibilidades de membros posteriores e inferiores, segundo o IBGE de 2000, é de 937.463 para tetraplégicos, paraplégicos ou hemiplegia permanente e 7.939.784 para incapacidade ou com alguma dificuldade de andar. 
 
Para algumas destas pessoas, o ato de retirar o cabelo do olho é impossível, coçar ou tocar qualquer parte do corpo é impossível, virar o pescoço para ver alguém importante é impossível, dar um abraço é impossível e chorar diante disto também se torna muito difícil, porque juntamente com estas deficiências nos membros vem os problemas respiratórios e se afogar ou ter que tossir pode ser um risco para suas vidas.
Estas pessoas precisam estar no hospital fazendo cirurgias que tiram suas imunidades e alegria de viver, com cortes, medicações pesadas e poucas esperanças. 
Neste momento, a família torna-se fundamental, pois, sem a ajuda de alguém, estas pessoas não conseguem facilmente muita coisa que uma pessoa comum consegue. 
Elas precisam também de infraestrutura, e o nosso país não tem! 
 
Aí, neste momento, você lembra da novela da Rede Globo e logo vêm à sua cabeça alguns exemplos de superação. Superação é algo que está sendo muito banalizado quando se trata da questão deficiência. Não é fácil se superar todos os dias. Será que você, que não tem deficiência nenhuma, consegue se superar todos os dias? O que vale é o nosso reconhecimento de que ser deficiente “pra sempre” é uma provação diária que talvez você leitor nunca vá precisar passar.
 
O difícil não é adoecer, o difícil é saber que nunca vai poder curar e que cintos, fisioterapias, pessoas te carregando, todo mundo te olhando, uns curiosos sem noção fazendo perguntas indiscretas sobre você na sua cara e o governo te desprezando farão parte do seu cotidiano até o último dia de sua vida. 
 
Então, você que está aí todo “andandinho”… seja feliz por isto… por andar e poder abraçar quem ama, chorar sem se preocupar, levantar e sentar, subir degraus pequenos e grandes, etc. Saiba também de coisas importantes que te farão refletir. Saiba que, enquanto as pessoas não souberem tratar o câncer, você poderá ser o próximo a cair nesta tortura, enquanto as pessoas não souberem tratar os deficientes, você poderá cair ou se acidentar e ter que fazer parte deste inferno também. Logo, este problema é seu, do seu vizinho e dos seus familiares também… é meu… e todos nós! Devemos compartilhar do ideal de cobrança pelos investimentos maciços na área da saúde, pelo investimento em infraestrutura urbana para dar a todas as pessoas o direito de ir e vir como está na constituição.  
 
Eu queria salientar que os dados sobre deficiência não são recentes, deficientes sempre existiram, mas gastos com planejamento urbano em benefício desta minoria é algo recente na história do nosso país e, mesmo assim, não é compartilhado por todos os gestores municipais. Atualmente, possuímos em nosso país cerca de 190.732.694 pessoas e a maioria delas paga seus impostos em dia e a média mensal de imposto de um cidadão é de R$ 400,00. Eu tiro por mim, que nem pago imposto de renda, mas tenho o imposto sobre o salário, imposto do meu carro, casa, imposto sobre produto comprado, calcule você! Você não acha que um pouquinho deste dinheiro deveria fazer com que as cidades fossem mais bem planejadas? Que deveria ajudar as pessoas com deficiência ou dificuldade de locomoção a serem um pouco mais felizes e confortáveis ao se deslocarem de suas casas? Eu daria todo o meu imposto pago por isto… e você?