“Sobe, Fabio!”, disse Walmor Double J, do seu Jeep safra 1965, incrementado mais pelo amor do seu proprietário do que pelas novas descobertas tecnológicas (a sirene não funcionou!). “Com toda a família”, completou. Minha esposa e as meninas aceitaram de bom grado. Subimos para uma bela aventura de solidariedade, pelas ruas da cidade de Tubarão, às 19h30min de segunda-feira, 1º de dezembro.

No comboio, mais do que a quantidade de pessoas (expressiva), impressionava a qualidade dos voluntários: gente feliz, com o prazer da solidariedade prática fixado no rosto. Walmor JJ separava-se do comboio para fazer rally nas ruas paralelas. Bastava avistar uma mão segurando uma sacola, e disparava: “Moço, essa sacola é a das compras da padaria, para o café, mas espera que vou buscar um quilinho de arroz lá em casa”, explicavam, segurando firme a sacola, com medo que fosse recolhida para dentro do Jeep e, depois, para o caminhão. Uma senhora pediu que a seguíssemos até sua casa. Desci do Jeep para pegar duas sacolas, uma com roupa e outra com cobertores.

Ela tirou da sacola peça por peça e dava para eu cheirar: “Veja você, moço, e diga se não estão bem cheirosas. Lavei tudo com carinho”, explicou, enquanto mais uma blusinha aproximava-se do meu nariz. Gosto de odorar vinhos, mas odorei de bom grado as roupas, para confirmar que o perfume da limpeza aumentava o valor moral das roupas doadas. De repente, fomos ultrapassados por um carro com o porta-malas aberto. Lá dentro, um fogão. Pensei que se tratasse de uma mudança, mas era doação. “Saí de carro atrás de vocês, pois pensei que não passariam na minha rua.

Quero doar o fogão. Ainda é novo, e vai deixar alguém feliz”, explicou. A cena bizarra tornou-se experiência emocionante. Em segundos, colocamos o fogão dentro do caminhão. “Tomem cuidado com as bocas, não as deixem cair”, recomendou-nos a doadora. Na verdade, a impressão que eu tinha, quando recolhia qualquer produto doado, era de estar segurando um objeto sagrado, divinizado pelo amor. A sacralidade da solidariedade nos fazia sentir dentro de um belo mosteiro, animados por cantos gregorianos, mesmo estando num Jeep, animados pelas explosões da buzina a ar de um caminhão.

Enquanto o Jeep estava parado, um senhor aproximou-se. Com ele, um festeiro buldogue, que assemelhava – pela simpatia que irradiava – a um colega da Unisul, agora aposentado. “Como se chama o cachorrinho?”, perguntei. “O nome dele é Antero”, respondeu. Impressionante! Eu havia mesmo pensado no querido professor Antero (imaginem se eu não fosse amigo dele!). A coincidência de pensamento explicou-me que a solidariedade não é obra do acaso (a lei do amor é lei divina) nem é experiência sisuda. A solidariedade aquece o coração (de quem doa e de quem recebe) e diverte a alma.

Mesmo na tragédia, quando motivado pelo amor, o ser humano encontra também o prazer do bom humor, que solidifica os vínculos de fraternidade. Um estudante doou uma calça e uma camisa. “Deve ter tirado agora do armário”, pensei. A cara de felicidade dele me comoveu. Olhei para o lado e vi que Walmor estava em lágrimas. Voltamos para casa às 23 horas. O comboio do amor foi, também, uma bela ocasião de aprendizado para minhas duas filhas. Antes de dormir, lembrei das lições do professor Osvaldo Della Giustina sobre a “massa de consciência”: sujeito pessoal e coletivo, crítico e criativo, do amor.

Ele tem razão. Existe uma massa de consciência, mesmo se às vezes adormecida. Situações emergenciais a despertam. Mas não deveríamos viver a solidariedade somente em situações emergenciais. Precisamos dela todos os dias. Precisamos, também, de teorias científicas da solidariedade, que coloquem a amorização como referência central na pesquisa acadêmica, na política, no direito, na engenharia de trânsito, na economia, nas famílias, nas relações internacionais.