Que significa “consternados”? Esta dúvida ficou corroendo minha mente durante dias. Deveria ser algum termo técnico cujo sentido nada teria a ver com aquele do dicionário, aquele que eu conhecia. 
 
Explico e situo: o professor Maurício da Silva teve cassado os seus direitos políticos por prestar serviço como gerente de educação (cargo estadual) e vereador (cargo municipal), durante alguns meses, em 2003, mesmo não havendo incompatibilidade de horário. Na então Gerei, o expediente era até as 18 horas; na câmara, as sessões começavam às 19 horas.
 
Na longa manhã daquele 18 de maio do corrente ano, estava ansiosa para festejar o resultado do julgamento daquele estranho e incompreensível processo, confiante no fazer da justiça. Desde criança, sempre ouvi de minha mãe que justiça é para todos, que não se deixa levar por interesses particulares. Eu era só fé em Deus e confiança inabalável: a justiça seria feita e o que havia sido conspurcado do professor Maurício, ou melhor, da sociedade tubaronense que perdeu um de seus mais atuantes vereadores, seria devolvido. Afinal, pensava eu, ele não é corrupto nem corruptível nem “salteador” dos cofres públicos. Ele é um homem honesto e grande trabalhador. Como posso afirmar? Justifico!
 
Quando comecei a trabalhar com ele, na câmara de vereadores, ficava me perguntando “Por que, além de apresentar projeto de lei, o professor Mauricio divulga e cria ferramentas para fiscalizar?”. Isto não influenciava em nada no salário, que era o mesmo de quem sequer apresentava um requerimento por sessão. Além do mais, aplicar e fiscalizar já são responsabilidades do executivo… 
 
Sem entender e com vergonha de perguntar-lhe, comecei a seguir seus passos, esforçando-me para honrar e aproveitar a chance recebida. 
Assim, durante o expediente, estava sempre ocupada. Muitas vezes, colegas reclamavam, porque quase não tinha tempo para conversar, e os próprios vereadores diziam: “Maurício não dá uma chance para vocês, estão sempre ocupadas”, ou  “os assessores do Maurício não param”. Com o passar do tempo, entendi e aprendi que ser um funcionário do povo é trabalhar sem parar, visando ao bem da sociedade que o elegeu, confiou em seu trabalho e dar-lhe a devida resposta. 
E, com inocente expectativa de criança, sabedora de que justiça é legal, liguei diversas vezes no fim daquela manhã tão comprida. Ele estava em Florianópolis, acompanhando pessoalmente a decisão. Não atendia. Que estaria acontecendo? Por que tanta demora? 
 
Minha ansiedade crescia, até que ele atendeu e me disse: “Perdemos, 5 votaram consternados contra nós”. Em lágrimas, com a sensação de que a justiça é só fantasia de criança, perguntei umas 10 vezes: “Consternados? Eles votaram consternados?” E o professor me respondia “sim”.
 
Depois de alguns minutos e com uma tristeza explicável no lugar da confiança inabalável, fui para a escola dar as minhas aulas, mas me perguntando por que teriam votado consternados. Para lá, me dirigia pensando: “não dever ser a mesma palavra que conheço, deve ser um termo técnico”. Assim que cheguei, as colegas vieram me perguntar o resultado. 
 
Respondia e ninguém acreditava. Fomos ao dicionário, deveria existir um esclarecimento. Parecia-nos impossível juízes votarem consternados. Foi aí que não entendi mais nada. A palavra “consternado”, no dicionário, significa triste, contrariado, chateado. Então, chegamos juntos à conclusão e eu pergunto: Você votaria consternado ou faria justiça, votando consciente de que estava desfazendo uma grande injustiça?
 
Ah, não que ele tenha parado de lutar pelos tubaronenses, mesmo sem mandato, continuou e mantém a difícil luta  de sonhar (e realizar) o sonho de uma sociedade digna e segura para todos.
 
É aí que o professor Maurício deixa para mim outra lição:
Devo também continuar a sonhar o sonho da justiça justa! Como acreditava em criança.