Sempre tive o hábito de guardar coisas que penso que um dia poderão ter alguma utilidade: ferramentas, objetos, escritos, etc. Diante da resistência em me desfazer de certas tralhas, minha mulher passou até a aceitar essa mania com resignação. Mas o tempo, as traças, a falta de espaço e a maturidade me convenceram de que é necessário e também saudável que, de vez em quando, se faça uma limpeza geral nas gavetas e estantes. Um dia antes de acabar 2008 me vi diante de pilhas e pilhas de coisas que, percebo, tiveram pouca ou nenhuma utilidade, e provavelmente não teriam a menor importância, mesmo que ficassem guardadas por muito mais tempo.

No entanto, algumas folhas “xerocadas”, do tamanho de uma folha de jornal tablóide e dobradas duas vezes me chamaram a atenção: é a fotocópia de uma entrevista de Gershon Knispel publicada na revista Caros Amigos, de junho de 2002. Presente de um amigo, o material seria mais um dos que iriam pro lixo se não se tratasse do que se trata. A entrevista é intitulada “Um judeu das arábias” e teve a participação de nada menos do que oito pessoas (não sei se todas são jornalistas). Gershon Knispel é um judeu alemão. A família fugiu da Alemanha nazista em 1935 e foi para a Palestina quando ele tinha somente 2 anos. Foi educado e cresceu entre os árabes palestinos, em Haifa. Viveu cinco guerras entre Israel e os vizinhos árabes.

Em sete longas páginas de entrevista, Knispel expõe seu ponto de vista sobre diversas faces do conflito entre árabes e judeus. E o interessante é que, por ter toda essa proximidade com o mundo árabe, o judeu Knispel não pensa nem como a maioria do seu povo de origem, tampouco, quem sabe, quanto à maioria dos árabes.

Crítico da política praticada por Israel em relação à Palestina, o professor Knispel se despe da tradicional hipocrisia tão presente em um punhado de homens públicos e faz uma análise capaz de confundir cabeças de judeus e árabes ao mesmo tempo. Sustenta entre tantas coisas que os governos israelenses têm sido formados por militares, o que, segundo ele, explica a maneira truculenta e autoritária com que a questão árabe-judaica tem sido tratada há pelo menos cinco décadas.

Em Israel, os oficiais de carreira quando atingem 43 anos de idade passam por uma seleção. São escolhidos os três melhores e um deles é alçado a chefe do estado-maior. Como muitos oficiais percebem que não têm chance de chegar nem entre os três primeiros ingressam na política e viram ministros no governo. “É um governo militar sem golpe”, diz Knispel. São vários os exemplos, mas me atenho a apenas um: Ariel Sharon. Em 82, foi Sharon, então ministro da defesa, quem costurou um acordo secreto com uma organização fascista libanesa. O exército de Sharon encurralou entre 2,3 mil e 3,5 mil velhos, crianças e mulheres (o grupo de Yasser Arafat já tinha se mandado para a Síria) e a tal organização dizimou um a um impiedosamente.

Foi o conhecido massacre de Sabra e Chatila. Eu tinha apenas 16 anos na época e, até hoje, antes de ler essa “tralha” esquecida na gaveta, o massacre de Sabra e Chatila resumia-se a apenas pequenos flashes na minha memória. Agora, depois de lê-la, e com Israel caminhando rápido para mais uma carnificina, na Faixa de Gaza, a “tralha” passa a ser uma relíquia.

Gabriel Pensador (confesso que estou um pouco encabulado de ter de citá-lo) disse certa vez que “as canções que falam de política e corrupção mantêm-se sempre atuais” no Brasil. Da mesma forma, eu diria que coisas sobre os conflitos no Oriente Médio são sempre atuais, no mundo. Especialmente, porque os homens da guerra não vão mudar de idéia por causa do tilintar das taças. Nem nós ganhamos saúde, dinheiro, prestígio e felicidade em um simples movimento do ponteiro do relógio. Longe de querer ser um artigo anti-semita, isso é apenas a maneira de dizer que certas coisas precisam ser guardadas, para nós ou para nossos filhos, por muitos e muitos réveillons.