Estamos iniciando mais um ano pastoral. Podemos caracterizá-lo como o Ano da Palavra de Deus. Isso porque, em outubro próximo, ocorrerá o Sínodo dos Bispos em Roma, convocado pelo papa Bento XVI, sobre a palavra de Deus. O tema precisamente reza assim: “A igreja nasce e vive da palavra de Deus”.

O Ano da Palavra de Deus pode e deve tornar-se um grande momento de graça para nos aproximarmos ainda mais da palavra que Deus nos oferece com tanta gratuidade para iluminar os nossos caminhos de filhos e filhas de Deus. Importa sempre mais ler, meditar, rezar, partilhar e viver a Palavra de Deus.
Um dos frutos mais belos do Concílio Vaticano II é este de ter afirmado a centralidade da palavra de Deus na vida da igreja. Certamente, isso foi precedido e preparado pelo grande “movimento bíblico” que se desenvolveu ao longo de todo o século 20.

Basta pensar, por exemplo, nas revistas bíblicas e no papel desenvolvido pela Escola Bíblica de Jerusalém, fundada no ano de 1892 pelos Dominicanos franceses, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma, fundado no ano de 1909 e confiado aos Jesuítas, no Estudo Bíblico Fransciscano de Jerusalém, fundado pelos Franciscanos da Custódia da Terra Santa no ano de 1927.

Graças ao caminho feito pela igreja, a Constituição Dogmática Dei Verbum do Vaticano II novamente trouxe à luz a centralidade da Palavra na liturgia, na pregação, na teologia e na vida cotidiana dos fiéis.
Nascida pela palavra de Deus, a igreja encontra na palavra a sua sustentação e a sua luz.

Nela “está impregnada tanta eficácia e potência, capaz de ser sustento e vigor da igreja, e para os filhos da igreja a força de sua fé, o nutrimento da alma, a fonte pura e perene da vida espiritual” (n.25, Dei Verbum). Por isso, deve-se referir por excelência à sagrada escritura aquilo que está dito nela própria: “viva e eficaz é a palavra de Deus” (Hb 4, 12), “que tem o poder de edificar e dar a herança com todos os santificados” (At 20,32; cf. 1 Ts 2,13).

Ciente da centralidade da palavra de Deus na vida cristã, a já acima referida Constituição Dei Verbum continua recordado que a “igreja tem sempre venerado as divinas escrituras, como tem feito pelo próprio corpo do Senhor, não faltando nunca, sobretudo na sagrada liturgia, de se nutrir do pão da vida da mesa, seja da palavra de Deus seja do corpo de Cristo, e de propor-lo aos fiéis” (n. 21, Dei Verbum).
O último Concílio da Igreja colocou de novo a Bíblia nas mãos dos fiéis e ela tornou-se aquilo que era no início da igreja. Mas temos, na prática pastoral, ainda um longo caminho a percorrer até que a Bíblia seja “a fonte e a vida da igreja”.

O próximo Sínodo dos Bispos quer retomar a interrogação do papa João Paulo II feita na Vigília do Grande Jubileu de 2000: “Em que medida a palavra de Deus tornou-se mais plenamente alma da reflexão e ação teológico-pastoral e inspiração de toda a existência cristã, como pedia a Dei Verbum?”.

Hoje, no povo de Deus, percebe-se sempre mais, como já notava o profeta Amós no Antigo Testamento, fome e sede da palavra de Deus (cf. Am 8,11-12). Tomara que o Ano da Palavra de Deus tenha este grande fruto: ser o centro – começo e fim – de nossa vida cristã.