Eu já havia lido todos os livros de Apolônia Gastaldi e estava orgulhoso de poder constatar a grande escritora que ela havia se tornado. Mas faltava um para ler, havia um que eu não havia lido ainda. Na penúltima Feira de Rua do Livro de Florianópolis ela me presenteou com Anjos Azuis, com a seguinte dedicatória: “Vai aí a aura dos anjos azuis, se é que já não estás anjo!”. Nunca alguém me havia feito uma dedicatória assim e, como eu não lera ainda o livro, não entendi muito bem, mas achei singular e lindo.

Agora, que já tive o prazer de conhecer os anjos azuis, fico lisonjeado de receber a sua aura, pois sei que eles existem por aí, menos do que é preciso, mas mais do que imaginamos, fazendo bem mais do que o meu trabalho voluntário, do que a cesta básica que posso oferecer a uma família menos privilegiada que eu, do que a ajuda em biscoitos, frango, leite, que dou à creche que recebe menos de R$ 100,00 da prefeitura para cuidar de centenas de crianças de pais que precisam trabalhar.
Anjos Azuis é, na verdade, uma feliz – felicíssima – incursão de Apolônia pela literatura juvenil. O livro é bonito, a começar pela apresentação: a capa é azul em fundo branco – uma íris azul com duas mãos se encontrando no centro, o título é azul, o texto, no interior do livro é em azul. A história que o livro conta é de um azul brilhante.

Apolônia mostra a ação de uma organização – secreta – de jovens que arrebanham profissionais das mais diversas áreas, como médicos, enfermeiros, empregadas domésticas, diretores de bancos, professores, padres, psiquiatras, comerciantes, engraxates, porteiros de boates, etc., para descobrir drogados e encaminhá-los para tratamento, internamento, conseguir emprego, afastá-los do grupo de vício. Controlam seus passos, conversam com a família, com professores. Só não se envolvem com políticos e não denunciam usuários. Denunciam, sim, os pontos de venda, os vendedores. Por isso, os anjos azuis são uma sociedade secreta. Por isso, a necessidade de eles manterem segredo sobre as pessoas que fazem parte do grupo.

Apolônia mergulha nas atividades dos anjos, mostrando-nos a incansável batalha de pessoas que se empenham na difícil recuperação de quem sucumbiu às drogas, drama que aqueles que tiveram a felicidade de não ter ninguém na família, ou amigos com o problema, não têm ideia do que seja. Com leveza, mas mostrando sem rodeios um lado da nossa sociedade que só vemos no noticiário, a autora nos faz entender, a nós que não conhecíamos o problema, que a droga faz vítimas e não bandidos. Os bandidos são aqueles que distribuem as drogas, que induzem à dependência para poder vender. O livro de Apolônia, que é brasileira mas vive atualmente em Portugal, precisa ser lido, não só pelos jovens, mas por jovens de qualquer idade, dos oito aos 80. Essa ideia de solidariedade, de dedicação ao outro, de abnegação, de doação, precisa multiplicar-se, precisa ser uma realidade mais frequente.