Tive a oportunidade de conviver com dois grandes amigos marxistas convictos: Antonio Claudio Gomez de Sousa  e Rui Osvaldo Aguiar Pfutzenreuter. A época era o início da década de 1960. Local: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. Antonio Claudio foi meu colega no curso de engenharia de minas na Escola de Engenharia da mesma universidade. Conheci em 1963, no segundo ano. Filho de tradicional família de Lavras do Sul, com pai engenheiro gaúcho e mãe espanhola, inteligentíssimo, extremamente correto, dono de uma personalidade forte, indivíduo brilhante. Começamos a fazer trabalhos do curso juntos na biblioteca. Lá pelas tantas, um amigo perguntou-me se eu era “comuna”, tratamento dado aos marxistas. Surpreso respondi que não e fiquei intrigado com a pergunta. Ele, então me disse que sendo amigo do “Sousinha” eu deveria ser  simpático ao regime comunista. Descobri que depois de aproximadamente seis meses de convivência Antonio Claudio, em momento algum, manifestou-se sobre sua  preferência ideológica. Irmão do ator Paulo José, à época noivo da atriz Dina Sfat. No 4º  ano, deixou o curso e perdi o contato com o mesmo. 
 
Rui era nosso conterrâneo catarinense, nascido em Orleans. Saímos aqui de Tubarão, depois de passagem pelo Ginásio Sagrado Coração de Jesus e Colégio Dehon, em dezembro de 1960. Para os colegas, era o “fio de serrote”, apelido inspirado no seu porte físico longilíneo associado ao sobrenome. Fez vestibular. Não foi bem sucedido na medicina, mas passou no de filosofia da UFRGS. Escolheu a opção  jornalismo. Em 1963, passamos a morar no mesmo apartamento, na rua Marechal Floriano, em cima do Bar Montanhez. Sua frequência na faculdade de filosofia inspirou-lhe o pensamento marxista. Lá, era o foco das ideias revolucionárias. Daí foi para a militância. Em julho de 1964, não apareceu durante duas semanas. Não tínhamos notícias dele. O terceiro ocupante do apartamento era Eraldo Luís Batista, aqui do Morro Grande, Sangão, que imediatamente comentou que ele deveria estar preso. Finalmente, na esquina da rua da Praia, um dia dei de cara com ele. Estava voltando de um período de detenção. Em outubro de 1964, terminei o curso no Centro Preparatório de Oficiais da Reserva (CPOR), no bairro Menino Deus, meu compromisso cívico com as Forças Armadas e como estudante universitário. Só um amigo foi levar a sua homenagem e me prestigiar: Rui. Eu, naquele momento oficial do Exército; ele, ex-detento da instituição. Não guardou mágoa. Sua lealdade aos amigos estava acima de banalidades.
 
Pensava muito adiante do cidadão comum. Gostava de conversar sobre política internacional, criticava Stalin, admirava Lenin, duvidava de Fidel Castro, passou a admitir a vertente de Leon Trotsky como a mais sensata. Rui teve sensibilidade para os destinos do pensamento marxista. Trotsky profetizara o fim da União Soviética por degenerescência do estado burocratizado. A revolução deveria ser permanente. O pensador não agradou, mas na década de 90 a profecia se concretizou. Certo dia, Rui nos comunicou que ia para São Paulo participar de um grupo ativista mais atuante. Tudo o que ele tinha no apartamento nos legou. Lembro que para mim ficou, entre outras coisas, um rádio. O jornal Folha da Tarde de São Paulo noticiou o “estouro” de uma célula trotskista na cidade. Lembrei do Rui. Ele estava lá mesmo. Fui visitar seu pai em Orleans, o “seu” Vadico. Ficou muito emocionado. Emoção forte.