Em virtude de sua morte, prematura e inesperada, jornais, revistas, rádios, TVs, sites e blogs esmeraram-se em dissecar a biografia vitoriosa do cidadão catarinense João Batista Sérgio Murad e elencar as excelsas qualidades do empreendedor Beto Carrero. Como seu amigo e admirador, não poderia deixar de pranteá-lo, mas me restou pouco a acrescentar sem ser redundante, razão pela qual tomo outra vereda para homenagear este ser humano tão singular quanto maiúsculo. “As pessoas não morrem, ficam encantadas”, dizia o gênio Guimarães Rosa. Mas, e quem já era encantado em vida, no que se transforma? Lenda? Mito?

“Uma vida não basta ser vivida: também precisa ser sonhada”, ensinava Mário Quintana. Feliz de quem soube sonhar um sonho bom e, melhor ainda, soube viver para torná-lo realidade. “Se as coisas são inatingíveis, ora, não é motivo para não querê-las. Que triste os caminhos se não fosse a presença distante das estrelas”, sonhava o mesmo Quintana. Hoje, com as estrelas já não tão distantes, o sonho que parecia inatingível está aí, vivo, imperecível. “O amor e o desejo são as asas do espírito das grandes façanhas”, asseverava Goethe. Por ter tanto de ambos é que foi capaz de tão grandes façanhas.

“Para entender o coração e a mente de uma pessoa, não olhe para o que ela já conseguiu, mas para o que ela aspira”, pregava o sábio Gibran Khalil Gibran. Pois, mesmo depois de erguer do nada o maior parque temático da América Latina e quinto do mundo, Beto ainda tinha grandes planos: uma marina, um resort, um autódromo internacional e a maior montanha russa do mundo, esta já comprada dos japoneses e em vias de ser instalada.

“Quem distribui flores, antes, perfuma as próprias mãos”, ensinava Gandhi. A maioria das pessoas surpreendeu-se ao descobrir que aquele risonho e sempre radiante sonhador tinha já 70 anos, comprovando que, mutatis mutandis, quem distribui alegria, alegra a própria vida. “A arte da vida consiste em fazer da vida uma obra de arte”, pregava o mesmo Gandhi. Se assim é, então Beto foi, sem dúvida, um grande artista.

Sempre aberto às novas idéias, sem medo de enfrentar desafios – e, invariavelmente, vencê-los -, este personagem cativante, sonhador e visionário só podia deixar de viver em função de insuficiência cardíaca, pois ele era todo coração, um imenso coração não só para as dez milhões de crianças que visitaram o parque dos seus sonhos, mas para seus amigos, funcionários e, principalmente, sua família.

João Batista Sérgio Murad se foi, mas a lenda Beto Carrero permanece. E digo lenda sem medo de exagerar, pois, no exato momento em que seu corpo estava prestes a descer para a última morada, os céus enviaram uma repentina chuva de granizo, como que para recriminar a tristeza que invadia as três mil almas ali presentes. Uma perda irreparável… Santa Catarina perde muito com a sua ausência!