Como é de conhecimento geral, nossas origens são da Europa (Portugal e Espanha) e recebemos a contribuição, até o século 19, dos africanos aqui chegados com a escravidão. Outros povos que vieram ao nosso país, também da Europa (italianos, alemães, poloneses, outros europeus), e da Ásia pertencem à história recente. Esses praticamente transferiram a sua cultura para o Brasil, como se fosse uma simples mudança trazida nas embarcações que aqui os deixaram.
 
Luso-açorianos e africanos, entretanto, mesclaram seus costumes, suas qualidades, seus atributos, suas deficiências, formando um movimento diferenciado nesse particular, que foi homogeneizado ao longo dos quatro séculos após a descoberta por Cabral.
 
Nossos índios fazem parte desse caldo, porém, marcaram mais pela presença nos topônimos, arqueologia e em uma imensidão de vocábulos tupi-guaranis. Não se consegue identificá-los no nosso dia-a-dia atual.
Já o entrelaçamento entre africanos e o luso-açoriano é algo formidável, sobretudo porque ficou à margem dos preconceitos fortemente enraizados na cultura dos outros povos europeus, que, às vezes, querem negá-lo mas caem, apenas, em mera hipocrisia.
 
Jaguaruna e Sangão, mesmo sendo municípios pequenos, têm muito a mostrar, com exemplos atuais e do passado recente, o perfeito e simpático inter-relacionamento entre afro-descendendes e brancos de origem açoriana que povoaram a região.
 
Basicamente, tudo começou com o trabalho, nesse caso o escravo. Apesar de os portugueses ficarem responsabilizados pelo tráfico, informações da atualidade têm nos dado conta que os grandes incentivadores dessa atividade, que foi a principal economia do Brasil colônia, eram os próprios países da África Ocidental, que promoviam a prisão e venda dos seus cidadãos, liderados por seus chefes tribais.
 
Particularmente na região de Jaguaruna e Sangão (sesmarias de Garopaba do Sul e Campo Bom), sempre houve afetuoso relacionamento  com os escravos. Não chegamos a ter pelourinhos, grilhões ou açoites.
 
Mas é na cultura que a riqueza dessa miscigenação fica evidenciada. Na música, os afro-descendentes são absolutamente imbatíveis na percussão. Dizem os instrumentistas antigos da Banda Musical de Jaguaruna (Banda Amor à Pátria) que os brancos nunca deram certo quanto à responsabilidade de execução do surdo, caixa ou pratos. Já os morenos acertavam o compasso de imediato.
 
Na culinária, está mais que evidenciada a sua participação, até porque era de sua responsabilidade a cozinha do senhorio.
 
No ícone dos folguedos, o “boi de mamão”, a presença dos afro-descendentes foi fundamental para a popularização dessa fatia do folclore. Versos, poemas, cantorias, lamentos, apoteoses, tragédias, balés e comédias que envolvem (ou envolveram?) os passos desse que foi a grande diversão do povo até 50 anos atrás eram de autoria daquela gente. Inigualáveis.
 
Os movimentos afro modernos têm outro viés. Mas, como diria  Che, “hay que endurecer sin perder la ternura jamás”.