O neoliberalismo é o ar que respiramos no momento atual da história, prega em todos os lados a ideologia da sanidade. O verbo sanear aparece em muitos contextos: sanear um banco, uma empresa, a economia de uma cidade, um estado ou uma nação.
Logo vem a pergunta: como os enfermos culturais são capazes de participar dessa cruzada de saneamento?

Infelizmente, são conduzidos aos lazaretos dos incapazes economicamente. Na luta darwinista pela sobrevivência econômica, o mais fraco sempre perde: pessoa, grupo, estado, nação, continente. Daí surgem as multidões de pobres e derrotados em todos os níveis.

Em um artigo crítico e irônico (Reflexión cultural sobre la crisis econômica, in Revista Noticias Obreras), o pensador J. I. González Faus contrapõe-se às teses neoliberais de sanidade com uma análise da doença do mercado. Em vez de fonte de sanidade, é o de enfermidade. Define-lhe a doença por meio de quatro sintomas: descobre mal as necessidades, distribui pior, desperdiça e degrada.

Explicando mais: percebe as necessidades, os desejos e os caprichos das elites e as serve, desconhecendo as necessidades básicas de toda a população; em vez de distribuir, concentra a renda nas mãos de poucos; para acelerar a circulação de mercadoria e capital, produz bens descartáveis com alto desperdício; e, por fim, degrada as atividades humanas, transformando-as em mercadoria.

O lado mais frágil da balança – os pobres – cederá sempre diante do peso pesado dos interesses do capital, do mercado, da alta tecnologia, das empresas transnacionais, dos países centrais. É nesse jogo de interesses que se situam os cristãos. Somos vozes que clamam no deserto. É dessa coragem profética que dependem a nossa verdade e a nossa credibilidade.
Nesse sentido perguntamos: qual deve ser nossa teologia e nossa pastoral? Os caminhos vão por uma teologia e pastoral solidária-generosa. Prática que vem sendo construída e que ainda exige mais empenho teórico e prático.

Os cristãos têm longa experiência de práticas solidárias-generosas. É de toda a sua história. Desde os inícios da comunidade dos primeiros tempos, com a instituição dos diáconos, eles cuidaram e cuidam dos pobres. A verificação da autenticidade da missão de Paulo, por parte das colunas da igreja nascente – Tiago, Pedro e João, passou pelo critério dos pobres. Eles, diz o apóstolo ao receber a aprovação que ele pediu para a sua missão, “recomendaram-me apenas que só me lembrasse dos pobres, coisa que procurei fazer com muita solicitude” (cf. Gl 2,10).

A novidade de hoje vai mais longe. Não bastam certas práticas solidárias-generosas. Faz-se necessário criar uma cultura da solidariedade-generosidade que envolva os valores, o imaginário, os símbolos, a linguagem, tantos pessoais como sociais. Ela se expressa em ajuda, em presença, em assistência, mas, acima de tudo, em promoção.

Concluindo: nessa conjuntura atual, os cristãos não podem perder a sua própria natureza de serem companheiros dos pobres, porque fazem parte de uma igreja que surgiu pobre e foi perseguida. Esquecer suas origens e a origem de seu mestre fez-lhes perder seu traço fundamental.