Todo mundo já ouviu a Voz do Brasil, o programa de rádio oficial que vai ao ar, diariamente, às 19 horas, horário de Brasília. Mas pouca gente conhece a sua origem.

Nasceu com a Revolução de 30. Vitorioso, o presidente Getúlio Vargas implantou uma política de controle da informação, criando a Hora do Brasil, que tinha como locutor o legendário Luiz Jatobá (até hoje tido como o dono da mais bela e clara voz do rádio brasileiro). A primeira transmissão foi ao ar no dia 22 de julho de 1935. Em 1938, já sob o influxo do Estado Novo, o programa passava a ser de transmissão diária e obrigatória, em todas as emissoras de rádio do país, com duração de uma hora, sob o argumento de que o povo de todos os rincões precisariam ser bem informados.

Nesses mais de 70 anos de rápidas e profundas transformações tecnológicas, quase nada mudou na transmissão oficial, a não ser o nome. Em 1962, o nome que passou a ser A Voz do Brasil. O tradicional bordão que anunciava o início do programa – “Em Brasília, 19 horas” – foi substituído por “Sete horas em Brasília”. O tema inicial do programa (a abertura da Ópera O Guarani, de Carlos Gomes), infelizmente perdeu os seus clássicos acordes sinfônicos, mudando para pior, com pobres versões remixadas com ritmo de forró, samba, choro, bossa-nova, capoeira, moda de viola, techno e ‘drum and bass’.

Em 1995, a Voz do Brasil entrou para o Guiness Book como o programa de rádio mais antigo do Hemisfério Sul, o que lhe confere um diploma de antiguidade e, ao mesmo tempo, um odor de naftalina, e uma forte contestação, quanto à sua obrigatória retransmissão por todas as rádios do país.
Nesse mesmo ano (1995), a Rádio Eldorado de São Paulo deu início a uma campanha para acabar com essa obrigatoriedade, conseguindo a adesão de outras 850 emissoras de todo o Brasil.

Em 1997, a juíza Marisa Ferreira dos Santos, da 8ª Vara da Justiça Federal, concedeu uma tutela antecipada que propiciou que as rádios ficassem livres da obrigatoriedade da transmissão da Voz do Brasil, até que a questão fosse julgada no Supremo Tribunal Federal.

Em princípio, nada mais justo e adequado, nesses novos tempos em que a televisão tornou-se acessível a quase 100% da população brasileira, que toma contato com os principais acontecimentos da vida nacional ao vivo e a cores, na hora que bem entender, na emissora que melhor lhe convier.

No entanto, o Brasil é um país-continente, ainda cheio de grotões sem luz elétrica. O “Brasil profundo” vai muito além dos grandes centros urbanos. Os patrícios que moram longe das metrópoles contam, muitas vezes, apenas com um rádio de pilha para saber o que acontece no país. Nesses locais, os grandes jornais chegam com atraso de até dois dias.

As rádios instaladas nas grandes cidades não têm potência de transmissão que as façam capazes de levar informações para milhares de irmãos nossos, que moram nos nossos fins de mundo. É aí que entra a Voz do Brasil, ocupando esse espaço vazio.
O mais sensato seria acabar com a obrigatoriedade e criar um incentivo governamental às rádios que optem por reproduzir a programação oficial.