Na minha infância, a época de eleições era divertida. A gurizada costumava escalar a base de sustentação da rede elétrica (poste), para arrancar as placas dos candidatos aos pleitos eleitorais que por ali ficavam fixadas. Literalmente, uma briga por espaço na ânsia de deixar aquele sorriso congelado na vista da população. Além de ser uma poluição visual, ter que olhar para fuça daquela rapaziada não era fácil. Deve ser por isso que hoje tem aquele conhecido jargão no meio político: ‘o fulano botou a cara no poste’. Com o passar do tempo, as coisas mudaram (graças a Deus). Hoje, existem regras para se fazer a divulgação dos candidatos em tempos de eleição. Pelo menos em postes ninguém mais pode botar a cara.

Outra prática que também foi praticamente abolida (ao menos em público), mas que costumava me arrancar gargalhadas foi o showmício. Funcionava mais ou menos assim: o pretendente ao cargo eletivo organizava uma festa com música ao vivo, bebidas grátis e churrascada. Durante o dia, passava o carro de som anunciando: “hoje à noite grande showmício na localidade do buraco fundo, nosso querido candidato já mandou carnear dois bois. Não perca!”. A comunidade nem almoçava naquele dia. Só se ouvia o pessoal comentando: “Hoje eu vou encher a pança”. Lá pelas tantas, quando a rapaziada já estava embriagada e de barriga cheia, o pretendente ao cargo público subia no palanque esbravejando aos quatro ventos que iria mudar a vida de todo mundo se eleito fosse. A galera, já transtornada com os efeitos alucinógenos do álcool, gritava: “Já ganhou, já ganhou, já ganhou! Ele merece, ele merece, ele merece! Passou, passou, passou um avião, e nele estava escrito que o fulano é…”.

Tudo isso me faz regressar (historicamente) ainda mais no tempo, séculos atrás. Na Roma antiga, a escravidão na zona rural fez com que vários camponeses perdessem o emprego e migrassem para a cidade. O crescimento urbano acabou gerando problemas sociais e o imperador, com medo que a população se revoltasse com a falta de emprego e exigisse melhores condições de vida, acabou criando a política “panem et circenses”, a política do pão e circo. Consistia em oferecer aos romanos alimentação e diversão.

Quase todos os dias ocorriam lutas de gladiadores nos estádios (o mais famoso foi o Coliseu de Roma), onde eram distribuídos alimentos. Desta forma, a população carente acabava deixando de lado as dificuldades da vida, diminuindo as chances de revolta. Ao mesmo tempo, a população distraía-se e alimentava-se, esquecendo os problemas, assim não pensava em rebelar-se. Foram feitas tantas festas para manter a população sob controle, que o calendário romano chegou a ter 175 feriados por ano.

Com tudo isso que foi relembrado, fico feliz em termos hoje em dia uma população consciente da importância do seu poder, e não barganha seu voto por um sorriso efêmero de um oportunista qualquer, após ter comido um churrasco de contrafilé acompanhado com meia dúzia de cervejas. Que troca seu voto sim, mas por serviços e políticas públicas que beneficiam a coletividade. O futuro é muito maior do que apenas alguns dias de alegria com a barriga cheia. Diga não à política do pão e circo contemporânea.