Miguilim é um dos mais bonitos e tocantes personagens do grande Guimarães Rosa. Ele era um menininho muito sensível, que compreendia quase nada sobre o que se passava no mundo. Quando o colocaram para trabalhar, ele não fazia nada direito, vivia tropeçando nas coisas e se machucando. Diziam que era meio lerdo da cabeça.

Um dia, sentado no portão da fazenda, viu o vulto de dois homens se aproximando. Quando chegaram perto, Miguilim notou que era gente de fora, bem vestida, de terno branco. Um dos homens apeou e, notando que o menino forçava a vista para encará-lo, tirou os óculos e colocou em Miguilim… E fez-se a luz, o mundo transformou-se, num momento mágico, de rara beleza narrativa: Miguilim primeiro viu cada grãozinho de areia, depois as formigas, levantou os olhos e viu as folhas verdes, as flores coloridas, os galhos, o céu azul, percebeu que o homem não era dois, mas um só. Mais ao longe, viu a casa, chegou perto da mãe e descobriu como ela era bonita… E nós, leitores, descobrimos, então, que Miguilim não era lerdo da cabeça, apenas não enxergava bem.

Neste sábado, milhões de Miguilins, pelo mundo afora, devem reverenciar o físico e químico John Dalton, nascido em Cumberland, na Inglaterra, filho de uma família quaker. Pesquisador incansável, dedicou-se à meteorologia, física, química, gramática e linguística. Há exatos 215 anos, seu nome passou à história da ciência pela descoberta da anomalia da visão das cores, que ficou conhecida por daltonismo, em sua homenagem.

O daltonismo é uma perturbação da percepção visual caracterizada pela incapacidade de diferenciar todas ou algumas cores, trocando o verde pelo vermelho. Quase sempre de origem genética, pode também resultar de alguma lesão.
O distúrbio era desconhecido até o século 18, quando Dalton, ele próprio vítima do mal, resolveu estudá-lo.

Milhares de crianças têm dificuldade em aprender, devido a problemas relativos à visão ou à audição. Antes, assim como Miguilim, elas eram tidas como “lerdas”. Atento a isso, o nosso governo está finalizando um grande recenseamento de todos os alunos que sofrem de algum desses distúrbios.

A primeira fase, já concluída pela secretaria da educação, envolveu todos os alunos das escolas públicas estaduais. Nela, nossos professores, treinados pela Fundação Catarinense de Educação Especial, identificaram alunos com graus diversos de dificuldade, seja visual ou auditiva.

A segunda fase, já perto da conclusão, está encaminhando para consulta oftalmológica 12.622 alunos nos quais foram detectados indícios de problemas visuais, e para consulta com otorrinolaringologistas outros 861 alunos nos quais foram detectados indícios de problemas auditivos.

A terceira fase, que deverá ser concluída ainda este ano, em parceria com a secretaria de saúde, prevê a doação de óculos e de aparelhos auditivos a todas as crianças cujos exames médicos indicarem essa necessidade.

Muito em breve, os Miguilins que restam desaparecerão definitivamente na nossa rede escolar. Só existirão nas páginas memoráveis do insuperável mestre Guimarães Rosa.