Recentemente, manifestei num blog minha simpatia crítica por Voltaire. Simpatias e antipatias devem ser sempre críticas para que não se transformem em injustas adulações ou rejeições.
Perguntaram-me sobre os motivos de minha simpatia por Voltaire, como se fosse estranho gostar dele. Talvez pelo fato de eu ser um católico convicto. Ora, estranho seria não gostar de Voltaire.

Gosto de Voltaire porque, ao contrário dos iluministas ateus, ele foi um iluminista crente; ao contrário dos crentes fanáticos, fundamentalistas, ele foi um deísta crítico e tolerante; ao contrário dos enciclopedistas sisudos, ele divulgou o conteúdo das enciclopédias até por meio de panfletos (se vivesse hoje, Voltaire certamente assinaria um blog, com um pseudônimo – aliás, Voltaire é o pseudônimo de François-Marie Arouet); ao contrário de Rousseau, que acreditava no ingênuo mito do bom selvagem, ele foi um realista idealista, como Hobbes e Maquiavel (que também escreveu para o teatro).

Mas gosto mesmo de Voltaire principalmente porque, ao contrário dos intolerantes do antigo e do novo regime (jacobinos fundamentalistas de ontem e de hoje, crentes ou ateus), ele escreveu para o vulgo (foi um vulgarizador do pensamento, no bom sentido da palavra), sem perder em profundidade, e sempre com um sorriso maroto, debochado, pendurado em sua pena.

A cidade de Genebra, de Calvino ontem e da ONU Européia hoje, foi, também, a cidade escolhida pelo irreverente Voltaire. Aliás, em Genebra está o nosso querido Sérgio Vieira de Mello, brasileiro cidadão do mundo que “se sacrificou por uma causa de todos os povos” (Jacques Marcovitch). Sérgio lutou pela tolerância por meio do amor prático pelos direitos humanos. Voltaire lutou pela tolerância por meio da risada inteligente.

Voltaire, Genebra, Sérgio Vieira de Mello, liberdade de pensamento, unidade do mundo pela troca do fundamentalismo pelo amor, liberdade e bom humor.
Realmente, há muita gente boa nesse mundo. Pena que a maioria já está nos cemitérios. Como dizia um amigo, depois da morte de Vinicius de Moraes (bebia, mas foi um gênio da poesia), o lado de lá ficou mais interessante do que o lado de cá.