Durante muito tempo, as maiores preocupações dos países circulavam em torno da potência de sua frota militar. Desde o surgimento das nações até as últimas décadas, a dimensão militar de segurança internacional sempre foi o foco das políticas de defesa dos governos como meio de proteger seus objetivos centrais: manutenção do território, segurança à população, e a legitimidade de seu país como ator internacional. 
 
Porém, essa perspectiva de segurança que dominou o cenário durante a Guerra Fria ruiu assim como o muro de Berlim até 1989. Não que a mesma tenha desaparecido, o que podemos notar é a ascensão de outras preocupações além do foco na ameaça militar. Neste contexto recente, podemos incluir a segurança econômica como a grande ameaça à falência das nações, e é nesta dimensão de segurança que se concentram os maiores esforços dos países. Um país com economia estável é sinônimo de prosperidade social.
 
Podemos nos perguntar então: o que mantém o “motor” da economia de um país? As respostas são as mais criativas e diferentes possíveis, porém, uma variável em comum pode ser citada: energia. Sem segurança energética, não temos condições de fomentar as empresas e organizações. Pense no quanto é difícil ficar poucas horas sem energia, agora imagine um setor da economia, uma região do país, ou até mesmo o país inteiro.
 
Para evitar esse caos, China e Estados Unidos travam um verdadeiro duelo político e diplomático na África. Com mais de 9% de todo o petróleo do mundo, esse continente é uma boa alternativa de diversificação nas fontes energéticas. Além disso, proporciona um escape da dependência da instabilidade do Oriente Médio e Ásia Central, aumento dos laços comerciais e influência geopolítica na região.
 
A China iniciou a sua estratégia política em direção à África no final da década de 1980, o continente caracterizava-se por possuir pouca influência das empresas norte-americanas e europeias, abrindo assim um caminho à exploração e uma alternativa de venda do petróleo por parte dos governos africanos. Os primeiros projetos de expansão energética concentravam-se em Angola, República Democrática do Congo e Sudão. Hoje, já somam 27 projetos em 14 países do continente africano. 
Além dos investimentos diretos no setor energético, a China tratou de gerar uma imagem positiva de sua presença na África. Para isso, alguns investimentos indiretos foram realizados, especialmente na década de 1990, como: estradas, aeroportos, fábricas têxtis, centrais de energia elétrica, cancelamento da dívida externa de 34 países e outros programas de caráter social e assistencialistas. 
 
Porém, o sucesso deste país na África está nos seus acordos bilaterais e na maneira como são realizados. A China possui excelentes acordos com Angola e Sudão, este último revela-se um dos melhores do mundo no setor energético, devido às facilidades e baixos encargos proporcionados na exploração e exportação do petróleo. Além dos acordos, a China adota uma política de “não-intervenção” perante os assuntos internos dos países da região. Exemplos claros são as constantes consultas realizadas aos governos africanos antes de efetuar eventuais assinaturas na Organização das Nações Unidas (ONU) e que venham a prejudicar determinado país africano. Lembrando que a China possui o poder do veto, portanto, facilitando muito suas decisões no âmbito da ONU.
 
Na medida em que a China aumenta seus investimentos no continente, a mesma eleva sua influência política, e queira ou não, estará agindo como um ator de interferência no cenário interno dos países da região. Podemos notar que nos últimos anos o país tem participado ativamente das organizações multilaterais do continente, assim como nas negociações em âmbito bilateral, auxiliando nos conflitos internos e em suas negociações. Portanto, a China perde aos poucos o que foi o sucesso de sua inserção no setor energético africano: a política de “não-interferência”.
 
A África representa para os EUA 22% do total da importação de petróleo, igualando-se ao oriente-médio como principal fornecedor energético para o país. Diferente da China, a política norte-americana baseia-se na intervenção nos assuntos internos, o que vem a desgastar a imagem deste país no continente, exemplo claro disso são os recentes bombardeios à Líbia efetuados pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
 
Para efetuar seus investimentos, o governo estadunidense presa por algumas variáveis como: combate a corrupção, pirataria e terrorismo; estabilidade política, ética e religiosa; e governos simpatizantes. Convenhamos que a situação da maioria dos países africanos passa longe do desejado pelos norte-americanos, porém como meio a atingir essas variáveis básicas os EUA desenvolvem “programas de segurança”, além das constantes intervenções militares.
 
E é justamente em oposição à política de imposição estadunidense que a China emerge como grande concorrente do setor energético e geopolítico. Os EUA têm perdido muita credibilidade com os governos africanos, especialmente após as intervenções militares na Líbia. A China surge como comprador seguro do petróleo africano, além da garantia de que “missões de paz” ocidentais nos países da África poderão ser evitadas.