Amanhã, o mundo comemora os 212 anos de nascimento do grande historiador francês Jules Michelet e lembra, também, os 183 anos da morte do poeta e pintor inglês William Blake. O primeiro dizia que “difícil não é subir, mas, ao subir, continuarmos a ser quem somos”. O segundo arriscava-se a dizer que “se o doido persistisse na sua loucura tornar-se-ia sensato” e comprovava sua tese ao constatar que “aquilo que hoje está provado não foi outrora mais do que imaginado”.

No domingo, no transcurso dos 34 anos de sua morte, os brasileiros rendem justas homenagens ao ex-presidente Juscelino Kubitschek. As três frases acima poderiam ser aproveitadas por qualquer biógrafo para realçar o sentido e o significado de algumas das várias fases de sua vida. Ainda que não lhe tenha sido tão fácil subir, superou todos os obstáculos e chegou à mais alta magistratura da nação, sem nunca perder sua simplicidade, sua alegria, sua espontaneidade. Contrariando Maquiavel, nunca quis ser temido. Preferiu ser amado.

Hoje, ao vermos os benefícios gerados pela loucura de Brasília, percebemos que sua persistência foi um ato de sensatez, e sua visão de longo prazo concretizou o que fora imaginado já na Constituição de 1891.

No seu monumento literário Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa, contemporâneo de JK no curso de medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, pode-se encontrar também uma passagem que ilustra bem as idas e vindas de JK no “redemunho” da vida política brasileira de meados do século 20: “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.

Juscelino formou-se como médico e logo começou a trabalhar como capitão-médico da Polícia Militar, quando fez amizade com o futuro governador Benedito Valadares. Nomeado interventor federal em Minas, em 1933, Valadares colocou o amigo como seu chefe de gabinete.

A seguir, JK foi eleito deputado federal e nomeado prefeito de Belo Horizonte. Após uma gestão como deputado constituinte foi eleito governador de Minas Gerais. Venceu a eleição para presidente da república com o slogan “Cinquenta anos em cinco”. Quando terminou o mandato, foi eleito senador por Goiás, mas, acusado de corrupção e de ser apoiado pelos comunistas, teve o mandato cassado e os direitos políticos suspensos pelo regime militar. Partiu para um exílio voluntário nos EUA e na Europa.

Em 1966 tentou organizar uma frente pela redemocratização do país, junto com Carlos Lacerda e João Goulart, mas não obteve êxito e retornou ao exílio. Posteriormente, em 1967, tentou articular uma frente ampla de oposição ao regime militar, juntamente com o ex-presidente João Goulart e o ex-governador da Guanabara, Carlos Lacerda.

Decorridos os dez anos que duravam as cassações de direitos políticos, JK tentou voltar para a vida política. Para dissuadi-lo, os militares usaram os fantasmas das denúncias de corrupção e buscaram desmoralizá-lo politicamente. Eles ameaçavam levar as investigações adiante caso Juscelino tentasse voltar à cena política.

A imprensa chegou a dizer que ele teria a sétima maior fortuna do mundo, o que nunca foi provado. Durante a campanha eleitoral de 1960, para escolha de seu sucessor, o candidato vencedor, Jânio Quadros, prometia “varrer a corrupção” do governo JK. Mas, quando de sua morte, seu inventário de bens mostrou um patrimônio modesto. Juscelino teve a coragem de enfrentar tudo e sobreviver a tudo, incólume, imaculado.