A recondução do senador José Sarney ao comando da câmara alta do songresso nacional é um prenúncio de que não nos resta esperar grandes mudanças no horizonte político de Brasília. O pior é a permanência com ares de consenso entre os anciões do poder. Prova de que a maturidade dos anos não representa por si só revolução do pensamento ou bom senso crítico. Nem todo o desgaste aviltante das denúncias infindáveis contra o parlamentar foi suficiente para despertar o mínimo de pudor no senado.

A instituição decretou sua definitiva morte, cabendo a ela representar uma verdadeira caixa de ossos reservada para guardar a decrepitude de nossa democracia. Onde deveríamos enxergar a vanguarda do segmento político, avistamos a maior cicatriz de nosso retrocesso. Inúmeros senadores são alvejados diariamente por denúncias diversas. A mais recente atingiu inclusive alguns que figuravam como reservas morais da casa: o vergonhoso benefício perpétuo dos ex-governadores. E a despeito da indignação dos mais diferentes segmentos da sociedade, esses parlamentares não parecem dispostos a devolver aos cofres públicos as vultosas somas percebidas com tal regalia. Um verdadeiro ultraje!

O irônico disso tudo está na manifestação inicial do mais longevo de todos os políticos de nossa história recente. Assumiu prometendo a reforma política. Sepulcro caiado. Iguala-se a colocar uma casa à venda completamente pintada por fora, mas corroída nas estruturas e carcomida pelos cupins por dentro. Como diz a canção: “… não se iluda, pois nada muda se você não mudar”. Acreditar que os responsáveis pelo caos de nossas instituições políticas vão propor verdadeiras mudanças constitui-se ledo engano.

O PSOL protagonizou o contraditório, como já fez o seu candidato a presidente nas eleições do ano passado. Única ruptura ao discurso linear que os partidos adotaram nos últimos tempos. Mas estamos anestesiados. Nunca antes na história desse país presenciamos um distanciamento da opinião pública quanto ao processo político no Brasil. Aos milhares, os egípcios estão questionando seu governo. Lutam contra a perpetuação no poder. Por aqui, assistimos passivamente o “sacrifício” de Sarney ao assumir o “encargo” de presidir o senado, mantendo-se no poder por mais de meio século. Uma relíquia a ser guardada entre os ossos.