#Pracegover: Um homem de terno preto, com camisa branca e gravata preta

Cleber Duarte Coelho.
Doutor em Filosofia – Professor na UFSC.
Contato: cleberamasofia@gmail.com

Estava eu essa semana caminhando por aí, numa comunidade do interior, tentando exercitar as pernas e oxigenar a alma nesses tempos de pandemia. Aquele exercício que não é apenas físico, mas também terapêutico, porque olhar e ouvidos atentos captam canto dos pássaros, flores, visão de belas espécies de bichos percorrendo espaços, natureza exuberante. Sabe aquele dia que resolvemos “tirar o plugue da tomada”, ficarmos menos reféns da tecnologia e nos aproximarmos um pouco mais de nossa essência? Foi o que busquei neste dia, indo trilhar, subindo a montanha!

Lá pelas tantas, após uns cinquenta minutos de caminhada, na beira da estrada me deparo com uma mesa. Dezenas de vasos com plantas diferenciadas, uma pequena etiqueta com preço em cada uma delas. Um isopor onde estava escrito: “pague e leve”, com outro pote ao lado contendo dinheiro dentro, para troco. A ideia é você escolher a planta que lhe agrada, pagar, e pegar o troco caso o valor depositado seja maior que o preço da planta.

Simples assim! Mas onde estavam os donos das plantas? Estavam em sua casa, a uns cem metros dali, embora eu nem os tenha visto. Onde estava a placa com a mensagem: “Sorria, você está sendo filmado”? Não havia! Ah, mas com certeza havia lá alguma câmera escondida, você deve estar pensando. Nada de câmera. A única câmera escondida ali era a da minha própria consciência. A situação inusitada com a qual me deparei transmitia um recado inteligente, uma sabedoria silenciosa: nós estamos aqui fazendo nossa parte, agora faça você a sua!

Diante da situação real que vivenciei, podemos fazer algumas considerações sob o ponto de vista da Ética, campo de investigação da Filosofia, e palavra tão usada em nosso cotidiano. Se pensarmos naquilo que os gregos chamavam de ethos, e que pode ser traduzido como “hábito, costume, caráter”, entenderemos que a Ética está fundamentalmente ligada ao modo de vida, a uma conduta pessoal e intransferível, que cada um de nós resolve adotar diante do mundo (da natureza) e da vida na pólis (a vida em sociedade). Por isso Sócrates, aquele que foi considerado a mais sábio entre os gregos, dizia que é preferível ser vítima do mal a ser autor do mal. O cálculo moral é simples: se você é vítima do mal, nada fez de errado. Mas se você é autor do mal, e até considera ser esperto por conta disso ao obter uma vantagem ilícita sobre o outro (por exemplo), você tem o caráter corrompido. E ter o caráter corrompido, para Sócrates, é o maior dos males: uma pessoa de mau caráter tem que conviver o tempo todo consigo.

Por outro lado, quem é vítima deste mau-caratismo, mas está em paz com sua consciência, pode botar a cabeça no travesseiro e dormir em paz. Isso não significa que não tenhamos que ter prudência em nossas ações, mas sim, que retidão de caráter é característica de pessoas virtuosas. Algo muito parecido nos disse Immanuel Kant, filósofo do Iluminismo, que em uma das formulações de seu famoso imperativo categórico, nos diz: “Pensa e age de tal modo que todas as tuas ações possam ser transformadas em lei universal”. Ou seja: quando fores agir, faça o seguinte exercício de exame em sua consciência: e se todos fizerem o mesmo que eu farei agora, isso será bom para a vida em sociedade? É o que toda pessoa que joga lixo na rua deveria pensar: “mas se todos fizerem o que vou fazer agora, se todos jogarem lixo na rua, isso será bom?” A resposta, sabemos, obviamente é negativa. E se eu, naquela trilha, não pagasse pela planta que escolhi e ainda levasse embora o dinheiro que estava lá para o troco, isso seria bom? Segundo Sócrates e Kant, segundo uma concepção de Ética universal, certamente não. Ah, mas o mundo é dos espertos, muitos dirão. Mas o que é ser esperto? Apropriar-me daquilo que não me pertence, enganar deliberadamente os outros para obter vantagem, ser lobo em pele de cordeiro? Ora, somente uma espécie de doença da alma poderia me levar a trair a confiança da pessoa que deixou as plantas ali, com o dinheiro para o troco. O recado implícito, que não estava escrito, mas que entendi de imediato era: agora é você e sua própria consciência. Poderíamos nos perguntar: no final das contas, não é sempre assim?

Somos todos habitantes de uma grande polis, deste planeta que nos abriga. Um papel de bala jogado no chão, a embriaguez ao volante, um pedra riscada para deixar meu nome registrado num lugar ermo, uma gentileza no trânsito ou no estacionamento do supermercado, devolver o troco correto, não são e nunca serão ações isoladas. Todas as nossas ações reverberam no contexto social no qual estamos inseridos, em maior ou menor grau. Talvez nossa maior esperteza consista em estarmos atentos à necessidade de lapidarmos nosso caráter para sermos melhores pais, amigos, companheiros, cidadãos. Estarmos atentos ao modo como nos conduzimos no mundo. Ou como nos diz Zélia Duncan, poeta da MPB: “O que eu tenho é minha atitude. O que eu levo é minha atitude. O que pesa é minha atitude. Minha porção maior”.