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Opinião

Mineiro: a luta para terminar o dia de trabalho vivo

Publicado em 03/09/2019 07h38

Maciel Brognoli
Escritor

Meu pai era mineiro de profissão. Aposentou-se no ano de 1983, aos 34 anos, cumprindo uma jornada árdua de 15 anos em um buraco de mais de 100 metros de profundidade. O minério explorado era uma pedra chamada fluorita, retirada do subsolo na localidade de Canela Grande, em Pedras Grandes.

Você pode estar pensando que meu pai foi privilegiado, que conseguiu aposentar-se jovem e teve tempo para curtir a vida. Posso garantir que não. A única sorte foi ele ter saído vivo daquele buraco escuro após 15 anos convivendo com o diário risco de morte. Muitos de seus colegas de trabalho não tiveram a mesma sorte, pois a morte é muito criativa nesses lugares e se manifesta das mais variadas formas. Era frequente a transferência direta de mineiros daquele buraco de mina para outro, mais terrível, a cova do cemitério.

Para os que venciam todos os percalços da profissão e se aposentavam, como foi o caso de meu pai, a luta pela sobrevivência não terminava. A esmagadora maioria dos mineiros aposentados tinha que conviver pelo resto de suas vidas com graves problemas respiratórios, adquiridos em razão dos “breves” 15 anos de exposição ao pó da fluorita.

A vida de “homem-tatu” não era fácil. Os perigos estavam por toda parte. Meu pai contava que houve uma época em que eles desciam para e subiam da mina dentro de um latão que servia de elevador.

Certa vez, o cabo que segurava o “latão-elevador” rompeu-se, e o elevador improvisado despencou com um homem dentro. Do jovem mineiro só sobrou um monte de carne rasgada e ossos espatifados. Ele tinha filho pequeno e esposa. Nem velório digno o infeliz pôde receber.

Naquele tempo, para quebrar os veios de fluorita, a carga de dinamite era ligada ao detonador por um estopim comprido. Um dia, o estopim falhou. Os cinco mineiros, que estavam protegidos num canto seguro, à espera da explosão, tiveram que sair para consertar a falha. Era comum o estopim apagar de vez, mas miseravelmente, naquele dia o estopim apagou e voltou a queimar.

Quando os trabalhadores estavam a meio caminho, houve uma grande explosão que lançou pedaços de rochas na direção dos mineiros. Os corpos dos jovens trabalhadores foram retirados aos pedaços do fundo da mina. Somente um sobreviveu. Ele teve a sorte de não ter sido atingido na cabeça ou no peito. A rocha “apenas” decepou seu braço direito.

Outra história marcante foi a de um homem que morreu no último dia de trabalho, antes de assinar a papelada da aposentadoria. Feliz, ele se preparava para sair da mina, mas foi impedido por uma pequena pedra que caiu de um segmento superior e o atingiu mortalmente na cabeça.

Depois de conseguir o grande feito de sobreviver 15 anos trabalhando num ambiente hostil, meu pai conseguiu aposentar-se com um salário medíocre. Mas aí vieram os problemas de saúde. Ele superou a tuberculose, que naquele tempo era bem mais difícil de ser combatida que hoje em dia.

Lembro-me de vê-lo definhando e tossindo continuamente, cuspindo sangue com pedaços de carne em guardanapos. Mas ele superou a doença, e conseguiu sobreviver mais vinte anos com apenas metade de um pulmão. Foram duas décadas respirando com dificuldade.

Pouco tempo depois de completar 53 anos de idade, meu pai foi diagnosticado com câncer no esôfago, um maligno presente pelos 15 anos de trabalho no fundo da mina. Faleceu aos 54 anos.
Eu poderia contar mil outras histórias de mineiros que perderam a vida de forma estúpida, ou de mineiros que tiveram uma vida indigna depois de se aposentarem “jovens”, mas não quero me alongar em infinitos exemplos tristes.

As minas de fluorita do município de Pedras Grandes fecharam no desastroso governo do presidente Fernando Collor de Mello. Mas ainda existem muitas minas de carvão na região de Criciúma e Urussanga.

 Lembrei-me da história do meu pai, porque, há poucos dias, eu vi a manifestação emocionada do Senador Esperidião Amin durante debate sobre a Reforma da Previdência no Senado. Assim como o Senador, eu tenho a convicção de que os deputados federais erraram feio por não terem pensado nos mineiros ao elaborarem o texto da Proposta de Emenda à Constituição, pois esta categoria de trabalhadores é especial e precisa ser tratada de forma diferenciada das demais profissões. Resumindo: Se nada mudar, para ter o direito de solicitar a aposentadoria os mineiros terão que trabalhar mais anos dentro do buraco.

Em 1984, Esperidião Amim era o governador de Santa Catarina. Em setembro daquele ano aconteceu a explosão na mina de carvão Santana, em Urussanga. Foi a maior tragédia da mineração brasileira, pois resultou na morte de 31 mineiros.

Em seu discurso no Senado, em agosto deste ano, o ex-governador Amim quase foi às lágrimas ao relembrar que viveu de perto toda aquela angústia. Confesso que eu me emocionei também, pois essa recordação resgatou em mim memórias adormecidas. Lembro-me que no dia seguinte ao da explosão, eu estava em Urussanga, em frente ao local do acidente, no colo do meu pai e ao lado de muitos familiares. Estávamos lá à espera de notícias de um parente, morto naquela tragédia.


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