segunda, 23 de setembro de 2019
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Opinião

“Memórias de um vendedor de picolés”

Publicado em 02/07/2019 08h00

Maciel Brognoli
Escritor e Guarda Municipal de Tubarão

Eu estava a vender picolés na av. Marechal Deodoro, quando um senhor sentado à sombra de uma árvore gritou:

- Ei, “picolezeiro!”

Era homem alto, forte, mal-encarado e de grandes olhos negros. Perto de mim, parecia gigante. Ele devia contar uns quarenta e cinco anos, ou mais, de idade.

– Vai picolé aí, senhor? – perguntei.
Sem dizer palavra ele abriu a caixa que eu carregava a tiracolo, pegou um picolé e voltou a sentar-se, sem me fazer o pagamento. Por educação, aguardei uns dois minutos e pedi meu dinheiro. Mas ele disse que eu devia esperar de boca fechada. Fiquei com medo, em silêncio. Em seguida, ele pegou outro picolé, mais um e mais outro... No período de meia hora ele consumiu seis picolés. Depois de quase uma hora a esperá-lo, o homem se aproximou de mim e abriu a carteira. Eu vi que, entre várias notas de menor valor, ele escolheu me pagar com a única nota de cem. Um pouco envergonhado, eu disse que não tinha troco para lhe devolver, e pedi para que me pagasse com uma nota de dez. Mas o homem respondeu que vendedores que não carregam troco são despreparados e devem assumir o risco de ficar sem receber. Eu insisti, e recebi... uma bofetada na orelha.

Aquele foi um dia triste, pois eu voltei para casa com um ouvido chiando e prejuízo no bolso.
Mais de 20 anos se passaram, e eu me tornei adulto. Dia desses, de manhã bem cedinho, eu saí de casa para ir fazer coleta de sangue num laboratório no bairro Oficinas. Quando cheguei, o local ainda estava fechado, mas um homem já esperava parado em frente à porta. Era um senhor que aparentava ter uns setenta anos de idade e uns quarenta quilos de peso. Notei que ele tinha grave debilidade física, pois era notório que só se sustentava de pé, porque apoiava o corpo, curvado e trêmulo, numa bengala velha e suja. Com a mão livre, o velhinho segurava algumas notas de dinheiro e, sem dúvidas, seria alvo fácil nas mãos de ladrões covardes e cruéis, que costumam aproveitar-se do tamanho reduzido das crianças e da fragilidade física dos mais idosos.

Em determinado momento, a mão degenerada do velho vacilou, as notas caíram ao chão e se espalharam pela calçada, ao sopro do vento. Saí correndo e catei uma por uma. Quando estiquei o braço e ergui a cabeça para entregá-las, meus olhos encontraram os grandes olhos negros daquele velhinho. Eu não tive dúvidas, era ele! Tudo nele era velho e irreconhecível, menos os olhos, que continuavam negros e brilhantes e não me permitiram o engano.

Eu estava diante do homem que, no passado, fora grande e forte, o homem que me lograra e me esbofeteara a face, no tempo que eu era um menino magricela que vendia picolés. O mundo havia dado algumas voltas, e nossos papéis haviam se invertido. Agora era eu que parecia gigante perto dele. Fiquei parado a olhá-lo e não pude deixar de pensar na estupidez e na fragilidade humana. O velho esticou a mão ossuda e trêmula, pegou de volta seus dinheiros e me agradeceu com um belo e encantador sorriso, que só os frágeis e inocentes idosos conseguem nos oferecer.

Eu sorri de volta, para ele, e continuei a esperar o laboratório abrir.


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