Víctor Daltoé
Geógrafo e licenciado em Geografia pela UFSC

Em (no mínimo) um ponto, lulopetistas e bolsonaristas são mais semelhantes do que parecem: o ódio à grande imprensa. Para os primeiros, estamos todos sempre suscetíveis à influência maligna da “imprensa golpista”. Para os segundos, estamos sempre sendo amealhados pela “imprensa canalha” e mentirosa. Ambos miram sua artilharia no sentido de uma suposta grande conspiração que reúne as emissoras, rádios e jornais. Na bala de canhão dessa acusação infundada vem sempre escrita uma palavra-chave: manipulação.

O papel do jornalismo sério em um Estado democrático é o de não se deixar manipular por qualquer governo de plantão, apontando sempre seus eventuais erros com rigor, não importa qual sua orientação política ou seus ídolos, nem se eles moram no Brasil, na Espanha ou na Virgínia (EUA),
Isso não ocorre por algum princípio moral. Isso se deve ao fato de a democracia ser o único regime de governo cujas autoridades podem constantemente aperfeiçoar suas ações de acordo com as críticas de opositores. Em uma ditadura, seja ela de esquerda ou de direita (ambas desprezíveis), essa atitude é pouco possível, e os erros tendem a se reproduzir, enquanto o jornalismo permanece calado e inerte.

Mesmo em anos de franca democracia, os governos do Partido dos Trabalhadores (PT) tiveram bastante dificuldade em conviver com as denúncias de seus erros por parte da grande imprensa, culpando-a pelos seus próprios fracassos. Mas eles já são carta colocada no fundo do baralho. Bolsonaro, e seu séquito, entretanto, estão no comando do planalto, e seguem a mesma trilha lamacenta desenhada pelos petistas: o ataque à grande imprensa, culpando-a pelas críticas que faz aos erros crassos de um governo sem rumo.

Atenção: vamos comparar dois indivíduos hipotéticos. Um deles é jornalista, funcionário há anos de um grande jornal, com salário considerável, experiência e estabilidade. O outro é um blogueiro (repare, ele não é jornalista), defensor da imprensa alternativa, militante. Qual deles é mais suscetível ao suborno interessado de um partido político? Qual deles está mais propício a se tornar meio de manipulação explícita? E a divulgar fake news? Sabemos que não é o jornalista. E sabemos que tanto lulopetistas quanto bolsonaristas sonham com uma imprensa dominada por blogueiros interessados e comprados, e não jornalistas interessados em apurar fatos com o rigor que seu ofício exige.

Ou seja, governos de plantão. O jornalismo não é culpado pelos seus fracassos. Com todo o respeito.