Capivari de Baixo/Tubarão

No dia em que se comemora a visibilidade trans, uma palavra que possivelmente se pode definir a luta diária dessas pessoas seria ‘desafio’. Viver e assumir-se como homem ou mulher trans em um país ‘conservador’ e preconceituoso não é uma tarefa nada fácil.

O Brasil está no topo do ranking de países com mais registros de homicídios de transgêneros. No ano passado, foram assassinadas 124 pessoas trans, apenas por serem transexuais.  Segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), o Dossiê de Assassinatos e Violência contra Travestis e Transexuais Brasileiras, somente 11 casos tiveram suspeitos identificados pela polícia. A maioria das vítimas são negras (82%), do gênero feminino (97%), estava no Nordeste (37%) e tinha entre 15 e 29 anos: (59,2%), três delas tinham só 15 anos; duas foram apedrejadas até a morte e a outra, espancada e enforcada. A maioria das vítimas, 67%, eram travestis e mulheres transexuais profissionais do sexo

De acordo com a cantora, compositora, dançarina e coreógrafa, Pethyne Alves Ouriques, 25 anos, de Capivari de Baixo, ser trans pode ser definido em: identidade de gênero, orientação afetiva sexual e sexo biológico. “A identidade de gênero é como você se reconhece: mulher, homem ou não binário, ou seja, aquele que não se vê como apenas uma coisa ou outra. Já quando falamos de orientação afetiva sexual, o enfoque é por quem você sente atração. Aqui temos as lésbicas, gays, bissexuais e heterossexuais. E o sexo biológico está ligado à nossa biologia: cromossomos, hormônios, órgão sexual que temos, que pode ser: vagina, pênis. Nesse caso há também as pessoas intersexuais, que possuem características biológicas de ambos os sexos”, explica.

Ela destaca, que a pessoa transexual é aquela também chamada de transgênero ou travesti. É aquela que não se identifica com o gênero que a sociedade acredita, que ela deve ter por causa do seu sexo biológico. “Afinal, uma mulher não é definida por sua vagina ou um homem por seu pênis, não é mesmo? Acreditamos que entender é o primeiro passo auxiliar na visibilidade das pessoas que são marginalizadas por muitos. A data da Visibilidade Trans é simbólica, pois discutir as pautas das minorias e minorizados no Congresso Nacional é o primeiro pedaço da mudança”, observa.

Sobre o estudo levantado no último ano, a subnotificação como em outros indicadores sociais continua um problema. Formulários de atendimento a vítimas de violência – em delegacias e hospitais, por exemplo, não incluem marcadores de orientação sexual e/ou identidade de gênero.

Conforme o levantamento, nenhuma ação foi tomada pelo governo brasileiro em relação a LGBTIfobia e que pessoas LGBTI+ continuam espancadas à luz do dia e há grupos de ódio eclodindo pelo país. Para a Antra, não se deve comemorar uma ‘queda’ no número de casos – em 2018, foram 163. “A subnotificação, ou não publicação de alguns casos, compromete os resultados e faz parecer que houve queda nos assassinatos, quando na verdade houve um aumento da invisibilidade dessas mortes”, pontua.

Pethyne conta que a data foi comemorada em Tubarão no último domingo, às 16h, na casa noturna Viper, com palestras, debates, música e dança. Assuntos como violência, mortes e direitos de uma pessoa trans no Brasil foram recorrentes.

Para a pessoa trans, a visibilidade é de suma importância para garantir os seus direitos. Os altos índices de assassinatos, crimes de transfobia, analfabetismo, desemprego, além do preconceito e da invisibilidade institucionais sofridos por pessoas trans só ocorrem em parte por conta da ignorância de uma parcela da sociedade. Quanto mais visibilidade, mais chances de criar mecanismos para reverter essa situação.