Willian ReisTubarão

“Destruiu a cidade”, disse o coordenador regional de Defesa Civil, Andersom Martins Cardoso, ao presenciar o vendaval que atingia Tubarão no fim da tarde daquele domingo, 16 de outubro de 2016. Segundo dados oficiais do Estado, as rajadas de vento chegaram a 220 km/h. Com os sistemas de comunicação interrompidos e sem fornecimento de energia elétrica no município, Cardoso foi até o Corpo de Bombeiros e se reuniu com o comandante do 8º Batalhão, tenente-coronel Marcos Aurélio Barcelos.

“Coronel, entramos para a história. Não me lembro de ter ocorrido antes um vendaval dessa magnitude”, confessou Cardoso ao comandante dos bombeiros. Até então, o que mais costumava ocorrer eram enxurradas e alagamentos, e, de repente, os moradores não só de Tubarão, mas de praticamente toda a Amurel precisavam lidar com um vento de força descomunal para os padrões da região.

Imediatamente, foi montada uma sala de situação no Corpo de Bombeiros. Ainda no domingo, o município recebeu a visita do secretário de Estado da Defesa Civil, Rodrigo Moratelli. Nas horas seguintes, Tubarão, Capivari de Baixo e Pescaria Brava decretaram situação de emergência. Em Tubarão, porém, diante da dimensão dos estragos, o caso evoluiu para um estado de calamidade pública.

Em situações assim, o recomendável é que a população permaneça em suas casas. Mas não foi o que ocorreu em Tubarão. Cardoso lembra que muitos foram para as ruas conferir a situação, ignorando os riscos de poderem ter se tornado novas vítimas do vendaval em meio a um cenário com fios soltos e galhos e árvores que poderiam cair a qualquer momento.

Para aquele domingo à tarde, que hoje completa um ano, o alerta era de rajadas de vento – mas nada que se assemelhasse ao vendaval. Nas primeiras horas, o trabalho das equipes consistiu em desobstruir as vias e identificar os locais onde havia fiação solta. A resposta ao desastre exigiu a ação de diversos órgãos, além da Defesa Civil e Bombeiros, como, por exemplo, Polícia Militar, Exército, Guarda Municipal, Celesc e cooperativas de eletrificação.

97 mil pessoas foram afetadas pelo vendaval em Tubarão
Uma menina de 7 anos morreu na tarde daquele domingo após algumas árvores terem atingido o carro em que estava no bairro São João, em Tubarão. O pai da criança foi hospitalizado em estado de choque. Nos dias seguintes, mais pessoas morreram na região por queda de telhados – somente em Tubarão, foram duas mortes acidentais.

Na Unisul, mais de 10 mil alunos ficaram sem aulas nos dias seguintes. Houve cancelamento ainda no campus do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) e em outras instituições de ensino. Prédios de escolas municipais e estaduais também foram danificados pelas rajadas de vento. 

Em todo o município, cerca de 97 mil pessoas foram afetadas pelo vendaval. Ao todo, 21 ficaram feridos. Oito ficaram desabrigados e 3.512, desalojados. Foram mil casas e 30 instalações públicas atingidas. O coordenador regional de Defesa Civil avalia que foram meses até que o dia a dia na cidade voltasse ao normal.

Empresários buscam formas de agilizar liberação de recursos
Cerca de 120 empresários do município entraram com pedido de recursos junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e à Agência de Fomento do Estado de Santa Catarina S.A. (Badesc) ainda no ano passado. “Até onde sei, só seis conseguiram”, diz o presidente da Associação das Micro e Pequenas Empresas e dos Empreendedores Individuais de Tubarão (Ampe), Luis Henrique Magalhães Dal Molin.

Uma das empresas, segundo ele, teve prejuízo de R$ 1,2 milhão e só conseguiu os recursos cinco meses depois. Dal Molin afirma que as maiores perdas foram no setor automotivo. Em uma das mecânicas, por exemplo, as despesas chegaram a R$ 800 mil.

“Na hora de ir à cata do dinheiro, fica só entre as empresas e as entidades financeiras. Como a maioria das empresas não tem garantia real para oferecer aos bancos, o dinheiro não vem. Tem empresário ainda sofrendo”, comenta Dal Molin, acrescentando que há casos de galpões que tinham apenas seguro contra explosões.

Para tentar agilizar o socorro aos empresários nestas situações, a Federação das Associações de Micro e Pequenas Empresas e Empreendedor Individual de Santa Catarina (Fampesc) articula com o Estado a criação de uma Rede de Prevenção e Atendimento a Empreendedores Atingidos por Catástrofes Climáticas.  

A ideia é que entidades empresariais catarinenses e órgãos do governo encontrem formas mais ágeis de ajudar o empresário, algo como uma série de protocolo de como proceder para obter a ajuda do Estado. Na próxima reunião, ainda a ser agendada, o grupo de trabalho já deve começar a discutir propostas.  

Cidade está mais preparada, afirma coordenador
O coordenador regional de Defesa Civil, Andersom Martins Cardoso, diz que hoje a cidade está mais preparada para lidar com situações como a do desastre do ano passado. “A população está criando a ideia de autoproteção, no sentido de não sair de casa para ver os danos nas ruas”, afirma. Hoje, inicia em todas os municípios catarinenses o serviço de notificação de emergência via SMS (mensagem de texto) da Defesa Civil. Para receber as notificações, basta enviar um SMS com o CEP (com ou sem hífen ou espaço) para 40199. Além disso, a região vai contar com um radar móvel a ser instalado no Morro dos Conventos, em Araranguá. Com o início da operação, o Estado, que já dispõe dos radares fixos de Lontras e Chapecó, passará a ter cobertura total em seu território.