Cada vez mais, o cheque é substituído por outros meios de pagamento. Em 2017, foram compensados 494 milhões de cheques no Brasil. Houve redução de 85% em relação ao ano de 1995 – início da série histórica -, quando 3,3 bilhões de documentos haviam sido compensados. Esse é um caminho sem volta. Os meios eletrônicos conquistaram a preferência dos clientes. Segundo a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), com base nos dados do Compe – Serviço de Compensação de Cheques, a queda na utilização de cheques foi de 14% na comparação 2016/2017.

O presidente da Associação dos Bancos do Rio Grande do Sul (Asbancos RS), Luiz Gonzaga Veras Mota, cita outras informações ilustrativas sobre o abandono do uso do cheque pelos clientes. O volume financeiro total de cheques emitidos em 1997 somou R$ 1,89 trilhão. Em 2017, o valor caiu para R$ 837 bilhões, redução de 149,5%. Há 20 anos o uso do cartão eletrônico dos bancos era restritivo, não muito disseminado, lembrou Veras Mota, que também é presidente do Banrisul. Hoje, o smartphone está assumindo papel de cartão eletrônico virtual e se populariza mais a cada dia. Essa transformação tem sido, no ambiente atual, favorável aos clientes, sejam eles pessoas físicas ou jurídicas, frisa o presidente da Asbancos RS.

Um talão de 20 folhas tem custo de R$ 20, ou R$ 1 por folha. Essa despesa está saindo de cena. Nos próximos cinco anos, prevê Veras Mota, a redução no uso dos cheques como documento financeiro deverá chegar a 30% e o smart-phone será, certamente, predominante devido ao avanço inevitável dos softwares e aplicativos.

Na avaliação do presidente da Asbancos-RS, a expansão no uso do smartphone, como se fosse cartão digital, deverá causar transformações e queda na utilização dos cartões eletrônicos bancários (plástico). Esse mesmo processo evolutivo chega também às relações interbancárias, nas quais a expansão dos meios eletrônicos e digitais caminha no sentido da redução do papel e do dinheiro (físico). Um desses caminhos pode ser o block change, o mesmo usado no bitcoin, moeda digital (tipo criptomoeda).

Quanto ao futuro do cheque, não há mais dúvidas: “O documento está com seus dias contados”, entende o presidente da Asbancos RS. No Rio Grande do Sul, a relação financeira representada pelo uso dos cheques significa de 7% a 8% do total nacional ou cerca de R$ 65 milhões no ano passado (estimativa). Em número de documentos, a participação do RS tem sido próxima a 40 milhões cheques/ano.

Varejo

Mesmo esquecido em grande parte das operações financeiras, o cheque tem nichos de sobrevivência como documento. Isso é verdade nos negócios do varejo e no pagamento de serviços. Por exemplo, os pagamentos de trabalhos de mecânica, construção, reparos ou conserto de valor superior a R$ 1 mil dificilmente são feitos em dinheiro ou cartão eletrônico, exceto se o prestador do serviço tiver a máquina, observa o vice-presidente da Associação Gaúcha para o Desenvolvimento do Varejo (AGV), Sérgio Galbinski. Em lojas de shoppings está quase consolidado: a maioria dos negócios é efetivada via pagamento eletrônico, mas nas lojas de rua o cheque é bem mais utilizado. “Aos pequenos lojistas, muitas vezes, as taxas cobradas pelas administradoras de cartão tem custo superior ao montante da inadimplência no cheque”, ressalta o vice-presidente da AGV.

Há administradoras que descontam 4,5% do lojista sobre o valor da venda e, se for o caso de antecipação de pagamento, cobram mais, entre 1,5% a 2%, explica Galbinski ao justificar a preferência pelo cheque. É inegável que os meios eletrônicos são predominantes nas transações de compra e venda, mas mesmo assim há um universo de empresários que não trabalha com cartões para fugir das pesadas taxas e há ramos de atividade nos quais o cheque é moeda de pagamento e serve como documento. “Quem encomenda uma cozinha, um dormitório sob medida ou móveis quase sempre usa cheque”, diz o dirigente. Compras de valor entre R$ 4 mil e R$ 6 mil são preferencialmente quitadas com cheques, diz Galbinski. Essa é a percepção de quem atua no varejo. Por outro lado, há uma boa parcela da população que tem limite financeiro baixo no cartão para usar no pagamento de um produto de maior preço devido também à existência de outras compras parceladas no mesmo cartão. É nessas situações nas quais o cheque cresce em importância. O seu uso, ou não, está também vinculado à situação pessoal de quem compra/paga ou do comerciante ou então do prestador de serviço.