Liliane Dias
Braço do Norte

Jadilson Adriano Nazário Pereira, de 45 anos, teve uma vida muito difícil. Sempre lutou muito para se manter de pé em virtude dos problemas de saúde. Com dois meses ficou doente pela primeira vez. Na época a medicina não era tão evoluída, então foi difícil descobrir o que estava ocorrendo depois de muitos exames, recebeu o diagnóstico de meningite e desenganado pelos médicos.

A esposa Danea Aparecida Librelato Pereira, conta que a mãe de Jadilson, inconformada, procurou por um remédio caseiro, a ‘garrafada’, como última esperança. Assim, aos poucos se recuperou e teve uma vida normal na infância.

Aos 12 anos, novos problemas de saúde começaram a se manifestar. Teve úlcera nas pernas, as veias estouravam e surgiam feridas. Os anos seguintes foram de muita dor, muitos curativos e de idas e vindas ao hospital. “Ele estava sempre de calça, para esconder as faixas e curativos das pernas. Sempre escondeu a sua dor”, conta a esposa.

Mesmo assim, manteve-se alegre e brincalhão. Amigo de todos, sempre estava pronto para ajudar o próximo. “Se o problema fosse de saúde, ele não media esforços. Procurar uma consulta médica, conseguir uma receita para um remédio, marcar exames, marcar perícia ou levar alguém para consultar”, relembra Danea.

O tempo passou e em 2003, dois meses após o casamento, teve que passar por uma cirurgia e em 2004 outra. Em outubro de 2006, uma dor insuportável na perna direita foi motivo de uma internação. Depois de vários exames e quinze dias internado, a notícia de mais uma doença: Trombose Venosa Profunda ou Síndrome Pós Trombólica (onde o sangue vai coagulando e falta circulação).

“A partir daí remédios para afinar o sangue, para circulação e metade dos dias deitado com a perna elevada para ajudar na melhora dos sintomas. Não poderia mais trabalhar. “Quando não estava com muita dor, saíamos para dançar, conversar com nossos amigos, rir e falar bobagens, como todos os casais. Mas o resultado era uma semana sentindo dores e mal-estar”, recorda.

Passado algum tempo, Pereira começou a desenvolver síndrome do pânico. Mais remédios, mais despesas, até sair o resultado do recurso e restabelecer o pagamento do benefício que havia sido cortado. “E esse guerreiro cheio de dores, enquanto eu e Jéssica saíamos para trabalhar, ele cuidava da nossa bebê Maria Eduarda, levava para a creche, depois para escola, escolinha de vôlei, ajudava nas tarefas escolares. E toda tarde na hora do repouso enquanto mantinha as pernas elevadas, a pequena ficava alegrando as suas horas”, detalha.

Mais um tempo passou e os dias tranquilos se foram com o corte do benefício, porém, desta vez, foi encaminhado para a reabilitação profissional. “Jadilson teve que voltar a estudar para mudar de profissão. Quando conseguiu matrícula não tinha ônibus. Encaminhado para outro curso, não conseguiu matrícula. Com esse vai e vem, entrou em depressão”, expõe.

Com quadro de pressão alterada, sem controle na alimentação, diabetes elevado e sempre nervoso, não tinha mais ânimo. Assim, crises de ansiedade e vômito passaram a ocorrer todas as noites até que em agosto de 2019, depois de um ‘machucadinho’ se tornar maior e não cicatrizar, ele teve que amputar um dedo do pé direito.

Mais uma vez meses de tratamento se passaram e em virtude do diabetes a recuperação era lenta. “Até que nos primeiros dias de dezembro houve uma piora, os dois pés escurecendo e acreditamos ser trombose. Internado descobrimos que os dois rins estavam parados. A primeira etapa era fazer uma raspagem no pé direito para limpar a parte comprometida pela falta de circulação. Já a segunda etapa era cuidar dos rins”, conta.

Após seis dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), muitas complicações, muitos procedimentos, hemodiálises e incertezas. Até que depois de 22 dias retornou para casa. Mas uma semana depois passou mal e voltou ao hospital. Lá, fez uma raspagem, desta vez, no pé esquerdo que estava ‘necrosado’ por falta de circulação.

Com os dois pés enfaixados e ferimento aberto, pois não tinha como dar pontos e mesmo com todos os cuidados dentro do hospital, a falta de circulação ocasionou novas complicações. “A solução mais segura foi amputar as duas pernas acima do joelho. Uma decisão difícil, mas que permitiria tentar estender a vida e acabar com a infecção que só mostrava avanço”, explica Danea.

O sucesso da cirurgia, garantiu seu retorno ao quarto e Jéssica comenta que todo o período que Pereira esteve no hospital, ele foi muito bem cuidado. “Sabemos das limitações do SUS, mas não podemos reclamar. Enfermeiros e médicos muito queridos e dedicados. Ele fez grandes amigos na equipe enquanto esteve internado”, comenta.

Ele retornou para a casa do primo onde estava hospedado. “Não tínhamos como adaptar para cadeira de rodas. Então o primo dele, João, saiu da própria casa com a família e foi morar com a mãe. Deixando a gente morar aqui enquanto precisasse”, emociona-se. E lá ele permaneceu até a data do seu falecimento. Nos últimos dias, Pereira sentia muitas dores, físicas e emocionais, muita tristeza e cansaço.

A esposa diz ser muito grata a Deus por colocar em seu caminho um ser iluminado e muito amado. “Sempre foi um marido exemplar e um pai maravilhoso, com um coração de ouro que adotou essas duas joias como suas (Jéssica e Maria Eduarda). Também somos gratos a Deus por ser parte desta família, onde parentes e amigos juntos lutam conosco por meio da oração”, desabafa.

Jéssica conta que Jadilson será lembrado todos os dias. “Foram muitos os bons momentos. Muitas gargalhadas que compartilhamos. Que por onde ele passava, transformava vidas. Mesmo na sua dor se dedicava a fazer o dia do outro melhor, ajudando, se preocupando, fazendo piada, sempre com um sorriso gigante. O vazio sempre dará lugar as nossas memórias hilárias das brincadeiras mais ‘bobas’, e ele sempre nos fará rir sozinhos ao lembrar”, orgulha-se.

 

Últimos dias

A filha Jessica Librelato Kniess, conta que ele lutou muito. “Ele precisava ser colocado na cadeira duas vezes por dia, colocá-lo era difícil. Só com ajuda dos primos dele, porque não conseguíamos com ele. Mesmo com muita dor no corpo, tristeza nos últimos dias, o meu pai não desistia”.

Jadilson voltou do hospital pela última vez uma semana antes do carnaval. A irmã Jadna Nazario Pereira, conta que ele não tinha mais ido para o hospital. Ele sentia dores, mas que estava bem.

Nesta segunda-feira (13), Pereira foi para a hemodiálise e quando retornou não quis comer. “Se sentiu enjoado e pediu para a Jessica filha ficar ao lado dele. Ela foi buscar o remédio e quando retornou, ele já estava passando mal. Chamou ajuda dos vizinhos e Samu mas em menos de 1 minuto já sabia que o havia perdido”, conta a irmã.

O Serviço de Atendimento Médico (Samu), foi chamado, mas quando chegou na casa de Jadilson ele já havia falecido. De acordo com o laudo médico, a sua morte foi por falência múltipla dos órgãos. Jadilson deixa duas filhas, Jessica Librelato Kniess, Maria Eduarda Librelato Pereira e a esposa Danea Aparecida Librelato Pereira.