#Pracegover Foto: na imagem há braços e mãos
#Pracegover Foto: na imagem há braços e mãos

Diversos casos considerados como racismo têm sido registrados e divulgados. Eles
expõem o problema do preconceito e inúmeros desafios para frear essas manifestações
consideradas como crimes são encontrados. De acordo com a historiadora Juliana
Bezerra, o racismo simboliza qualquer pensamento ou atitude que segrega as raças
humanas considerando-as hierarquicamente como superiores e inferiores. No Brasil, ele é
avaliado como fruto da era colonial e escravocrata estabelecida pelos colonizadores
portugueses.

Este assunto geralmente gera muitos debates em salas de aula, ambientes de
trabalho, filas de banco e rodas de conversa são exemplos comuns. Muitos
acreditam que esse preconceito permanece na sociedade, porém outras defendem
a sua inexistência. O fato é que sim, ele existe e se mostra cada vez mais presente em
nossa sociedade.

O filósofo e jurista Silvio Almeida, professor da Universidade Mackenzie e também da
Fundação Getulio Vargas e que atualmente é presidente do Instituto Luiz Gama (que atua
pela igualdade racial), quando se reconhece a existência do racismo, cria-se a obrigação
moral de agir contra ele. “A negação é essencial para a continuidade do racismo. Ele só
consegue funcionar e se reproduzir sem embaraço quando é negado, naturalizado,
incorporado ao nosso cotidiano como algo normal. Não sendo o racismo reconhecido, é
como se o problema não existisse e nenhuma mudança fosse necessária. A tomada de
consciência, portanto, é um ponto de partida fundamental”, explica.

Segundo dados da pesquisa ‘As Faces do Racismo’, análise encomendada pelo Instituto
Locomotiva a pedido da Central Única de Favelas (Cufa), aponta que 94% dos brasileiros
reconhecem que as pessoas pretas têm mais chances de serem abordadas de forma
violenta e mortas pela polícia. Conforme o levantamento 56% dos brasileiros, 118,9
milhões de pessoas, se declaram negros, o que incluem pretos e pardos.

O instituto Atlas da Violência divulgou em agosto passado que a taxa de homicídios de
pessoas pretas no país saltou de 34 para 37,8 por 100 mil habitantes entre 2008 e 2018,
o número representa um aumento de 11,5% no período. Por outro lado, os assassinatos
entre os não pretos houve um arrefecimento de 12,9%. Uma taxa de 15,9 para 13,9
mortes para cada grupo de 100 mil habitantes. Os pretos representaram 75,7% das vítimas de todos os homicídios. Os homicídios de mulheres pretas aumentaram 12,4%, enquanto os assassinatos de mulheres brancas reduziram 11,7%.

Os dados oficiais do mercado de trabalho mostram que os pretos formam a parcela com
as piores condições de emprego e renda do país. No ano passado, por exemplo, com a
pandemia, eles foram que mais sofreram os efeitos da crise.

A inclusão no mercado de trabalho é o tema mais urgente para a população negra,
segundo a pesquisa Consciência entre Urgências: Pautas e Potências da População
Negra no Brasil, divulgada em novembro pelo Google Brasil. Na opinião de 46%, a
colocação profissional é um dos assuntos prioritários para a vida das pessoas pretas. O
estudo foi realizado pela consultoria Mindset e pelo Instituto Datafolha e ouviu 1,2 mil
pessoas pretas e pardas ao longo de outubro de 2019.

O Instituto Locomotiva pontua que a desigualdade salarial não pode ser explicada apenas
pela falta de acesso ou oportunidade de formação para pessoas pretas, mas sim por um
processo cultural de exclusão e preconceito.A entidade fez uma análise dos salários de
trabalhadores negros e brancos com ensino superior e verificou que os trabalhadores
brancos ganham 31% a mais do que trabalhadores negros. Isolando as variáveis para
tentar explicar tal diferença, o que sobra é apenas a cor da pele.

 “O racismo é uma doença que nos faz ser discriminado somente pela nossa
cor’, afirma a empresária Leila Pereira

Na semana passada em Tubarão, uma  influenciadora digita causou polêmica e também deixou muitas pessoas em todo o Brasil revoltadas com a sua fala. O que elamencionou em seu Instagram foi considerado por muitos internautas como  racista. Em um vídeo em frente a uma farmácia no bairro Vila Moema, ela pontuou que às vezes exala um forte cheiro em suas axilas e por isso precisa utilizar desodorante de pele negra para conter o ‘mau cheiro’.

Contrária a fala da influenciadora, a empresária e também tubaronense Leila Pereira contestou os argumentos utilizados pela influenciadora. As duas foram procuradas pelo Notisul, porém apenas Leila concedeu a entrevista. “Primeiro quero pontuar que meu perfil
sempre foi fechado e abordei esse caso e temas relacionados ao preconceito. Não
somente o racial, mas batalho muito em cima do preconceito racial, sexual, religioso e
outras formas”, expõe.

Leila conta que sua reação foi imediata porque ficou incomodada com o assunto e que
uma pessoa considerada pública estava falando sobre o assunto de forma distorcida. “Sei
que muitas pessoas eram influenciadas por ela. Não acompanhava fielmente, mas sabia
da qualidade do trabalho. Aquilo me chocou. Eram 20 ou 30 mil pessoas assistindo e
eram más informadas e oprimidas. Os brancos não sofrem o racismo. Não existe o
racismo reverso. Somos todos iguais, porém a sociedade não vê dessa forma. Somos
visto como minoria, no entanto, somos a maioria em termos de população”, observa.

Segundo a empresária da Cidade, o preto é tratado muitas vezes como sem voz e que
por muitos é visto como não merecedor de benefícios e cargos. “O racismo é uma doença
que nos faz ser discriminado somente pela nossa cor. O racismo se manifesta de muitas
formas. Nunca passei pelo racismo ‘escrachado’, mas o velado e estrutural sempre
passei. Infelizmente o tipo de pessoa que mais morre no mundo são as mulheres jovens
pretas. Tudo está errado desde sempre. A minha luta pelo hoje muito mais pelo amanhã.
Sofremos hoje, mas nossos antepassados sofreram muito mais”, lamenta.

Segundo Leila, o racismo estrutural é aquele normalizado pela sociedade, bem aceito.
“Temos que combater essa situação com respeito, dignidade e lembrar que todos somos
seres humanos e passíveis a falhas, mas o racismo não é apenas um erro, ele é um
crime. É necessário falarmos disso, ensinar e aprender. Nós como pretos temos ainda
muito a aprender sobre este caso. Essa luta está longe de acabar, no entanto, acredito
que isso ocorrerá”, finaliza.

No último domingo de novembro (29) do ano passado, uma história considerada de
racismo ocorreu em um restaurante, em Laguna. A vítima era uma mulher, preta e
professora, Dilsimar da Silva Tereza, a Mana Tereza. Ela conta que enquanto
confraternizava com amigos em um estabelecimento comercial sentiu algo líquido
escorrer pelas suas costas e pernas. Ao olhar para trás, a mulher e sua amiga viram que se tratava de um senhor cuspindo em Mana Tereza. “Ele enchia a boca de cerveja, fazia o
que parecia um gargarejo e cuspia em minhas costas”, relata.

De acordo com Mana Tereza, a mulher que acompanhava o homem pediu desculpas e
alegou que ele nunca tinha feito isso. “Quando olhava este senhor, ele mostrava a língua
e balançava o rosto, uma verdadeira cena de horror. Nos distanciamos do casal e de
longe pude observar que ela estava tendo dificuldades para levá-lo até o carro, para irem
embora. Fui até eles oferecendo ajuda, mas ele não aceitou dizendo em alto e bom som
que eu era uma ‘nega macaca’, lamenta.

A coordenadora Municipal dos Direitos Humanos, em Tubarão, Aleida Cardoso Corrêa,
pontua que a nível mundial, há um longo caminho pela frente no combate às
desigualdades sociais e raciais. “O Brasil, país assentado na mão de obra escrava, ainda
se configura um país extremamente conservador; onde, podemos afirmar, que o ‘Brasil’,
ainda não conhece de fato, quem são os negros (as) brasileiros (as), que estão há tanto
tempo; pois deslegitima e invisibilidade uma árdua luta por sobrevivência, pertencimento e
reconhecimento a essa população”, observa.

Ela destaca que mesmo em época de pandemia, o racismo não dá trégua, aliás, fica cada
vez mais evidente a surpresa para quem somente acompanhou pelos noticiários os
últimos acontecimentos, mas não surpreende quem é perpassado por esse fenômeno
social nesse caso o racismo, do qual os negros são acometidos todos os dias. “Ocorre
que, nem em meio ao período de distanciamento social, o racismo se camufla, muito pelo
contrário, ele recria mecanismo de desumanização cerceando direitos a quem também é
digno dele”, assegura.

Por mais que as leis garantam a igualdade entre os povos, o racismo é um processo
histórico que modela a sociedade até hoje. Uma prova disso é o contraste explícito entre
o perfil da população brasileira e sua representatividade no Congresso. Enquanto a maior
parte dos habitantes é negra (54%), quase todos (96%) os parlamentares são brancos.
Outro dado relevante da violência contra a população negra é que a cada 23 minutos um
jovem negro é assassinado no Brasil.

Racismo estrutural é o termo usado para reforçar o fato de que há sociedades
estruturadas com base na discriminação que privilegia algumas raças em detrimento das
outras. No Brasil, nos outros países da América do Sul e também norte-americano e nos
europeus, essa distinção favorece os brancos e desfavorecem negros e indígenas. O
termo estrutural não significa dizer que o racismo é uma condição incontornável ou que a
trilha antirracismo feita até aqui seja inútil. Muito pelo contrário. Mas, mais que entender
que fazemos parte do sistema racista, é preciso que conversemos a respeito, pois o
silêncio nos torna responsável por sua manutenção.

De acordo com o diretor presidente da Fundação de Educação de Tubarão, Maurício da
Silva, o racismo estrutural é um problema que existe, mas o debate estava adormecido
até que ocorreu o assassinato com George Floyd. “O assassinato ocorreu nos Estados
Unidos, mas vimos que os protestos ocorrem em várias cidades de muitos países. O
objetivo era uma pauta de reivindicação, que é mudar a abordagem polícia e diminuir os
recursos para a repressão. Vamos verificar o que diz a legislação brasileira com relação à
questão do racismo e verificar as contribuições da educação como ela age para minimizar
os efeitos do racismo e minar as suas estruturas. E se possível eliminar de vez”, enfatiza.

Expressões consideradas racistas

A coisa tá preta: A expressão associa o “preto” a uma situação desconfortável,
desagradável, difícil e até perigosa. Em vez disso, pode-se dizer “A coisa está difícil”.

Serviço de preto: É uma frase usada para remeter a um serviço mal feito, ou realizado
de maneira errada, mas associa isso ao trabalho feito pelos negros, colocando a palavra
‘preto’ como a representação de algo ruim. Pode-se trocar por “serviço mal feito”.

Denegrir: No dicionário Aurélio, denegrir significa “fazer ficar mais negro”, mas no
cotidiano é usado como sinônimo de difamar, associando o “tornar-se negro” como algo
ofensivo, “manchando” uma reputação antes “limpa”. Aqui pode trocar essa expressão
facilmente usando somente “difamar”.

Cabelo ruim: Expressão normalmente usada para se referir pejorativamente ao cabelo
afro, juntamente com outras como fios “rebeldes”, “cabelo duro”, “carapinha”, “mafuá”,
“piaçava” e outros tantos derivados depreciam o cabelo afro. Conforme o Instituto
Geledés, por vários séculos, essas frases causaram a negação do próprio corpo e a baixa
autoestima entre as mulheres negras sem o cabelo liso. Pode-se usar apenas “seu cabelo
é cacheado” ou “cabelo afro” e retirar o tom pejorativo da fala porque ter um cabelo afro
não é sinônimo de cabelo ruim.

Ter um pé na cozinha: Essa é uma forma racista de falar de uma pessoa com origem
negra, pois lembra o período da escravidão em que o único lugar permitido às mulheres
negras era a cozinha da casa grande. Nesse caso, o melhor é retirar a expressão do
vocabulário.

Samba do crioulo doido: Esse é o título do samba que satirizava o ensino de História do
Brasil nas escolas do país nos tempos da ditadura, composto por Sérgio Porto (ele
assinava com o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta). No entanto, a expressão
debochada é comumente usada para se remeter a uma confusão ou trapalhada,
reafirmando um estereótipo e a discriminação aos negros.

Não sou tuas negas: Essa expressão coloca a mulher negra como “qualquer uma” ou
“de todo mundo”, ou seja, a frase indica que a pessoa não é “alguém que faz de tudo”.
Além de ser uma frase racista, também é muito machista e não deve ser usada.

Meia tigela: Usada para referir-se a algo sem valor ou medíocre, no entanto, a expressão
surgiu há muito tempo, envolvendo o sofrimento dos negros que trabalhavam à força nas
minas de ouro nem sempre conseguiam alcançar suas “metas”. A punição nesses casos
era receber apenas metade da tigela de comida, além de serem apelidados de “meia
tigela”. Em vez disso, pode-se dizer simplesmente “sem valor”.

Mulata: Na cultura espanhola, esse termo referia-se ao filhote macho do cruzamento de
cavalo com jumenta ou de jumento com égua e hoje é usada com a ideia de sedução,
sensualidade ligada a mulher negra. Um derivado ainda mais pejorativo é “mulata tipo
exportação”, que pulveriza a visão da mulher negra e seu corpo como uma mercadoria.
Esse é mais um caso de expressão a ser retirada do cotidiano.

Cor de pele: Pense um pouco em qual é a “cor da pele”. Geralmente no conjunto de lápis
é aquele tom meio rosado ou bege, no entanto, o tom não representa a pele de toda a
população e não deve ser usado como definição da cor da pele. Outra expressão
parecida é “da cor do pecado”, usada para referir-se a uma pessoa preta, mas perpetua a
visão de que ser negro é algo pecaminoso e impuro.

Doméstica: Esse termo ainda hoje está nos lares brasileiros para se remeter a uma
auxiliar de serviços gerais, mas traz uma carga racista histórica. Isso porque domésticas
eram as mulheres negras escravizadas que trabalhavam dentro das casas das famílias
brancas por serem consideradas “domesticadas”, ou seja, terem passado por “corretivos”,
já que os negros eram tratados como animais rebeldes.

Inveja branca: Na contramão de outros termos, esse significa que a inveja branca é uma
inveja “do bem”, que não faz mal. No entanto, isso associa a cor branca como algo bom,
que não machuca, ao contrário do negro.

Amanhã é dia de branco: Também nesse uso da palavra “branco” como algo bom, essa
expressão é utilizada para remeter a um dia de muito trabalho e compromissos, mas traz
uma visão de que só pessoas brancas trabalham duro. Isso porque, na época da
escravidão, o trabalho dos escravos não era visto como um trabalho de fato e isso
continua perpetuado até hoje com expressões como essa.

Mercado negro: O mercado negro é aquele que promove ações ilegais, e mais uma vez
é a palavra negro sendo usada com conotação desfavorável. O negro, na expressão,
significa ilícito.

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