#Pracegover Na foto, Pastor Ênio ao lado de família nordestina
Fotos: Arquivo Pessoal

Quem conhece a história do Pastor Ênio (49) sabe de sua trajetória voltada à evangelização e trabalhos sociais. Tudo começou aos 21 anos de idade, quando descobriu ter uma enfermidade que nenhum médico soube diagnosticar e ainda diziam que ele não teria muitos anos de vida.

Então, no desespero tentou de todas as formas encontrar uma solução. Católico, procurou ajuda de padres, amigos, todos os médicos que pode e foi assim durante um tempo sem respostas. Mas ele nunca pensou que a solução estava dentro de seu coração, onde teria um encontro com Deus e nunca mais se separariam.

“Numa madrugada chorei muito, foi quando ouvi uma voz dizendo ‘tu não falou com Deus ainda’. Então Ele me chamou para socorrer famílias carentes e me deu o dom da pregação. Naquele momento eu entreguei minha vida a Ele e disse que iria fazer a vontade Dele até o momento de Ele entender que minha missão chegou ao fim”, contou o Pastor.

Neste encontro o Pastor descobriu que sua missão era ajudar o maior número de pessoas que pudesse, viajaria por todo o Brasil evangelizando, levando as palavras sagradas e amenizando dores emocionais. Mas ele nunca estaria sozinho, além da presença de Deus em sua caminhada, iria contar com parceiros guiados por Ele e que teriam o mesmo propósito.

Nesta época, Pastor Ênio morava  em Gravatal com a esposa Valmireia (49) e tinha um filho de 6 meses. Pediu demissão do trabalho, vendeu sua casa e comprou um caminhão para montar um palco móvel onde faz seus cultos até hoje. Parece uma ideia muito insana aos 21 anos de idade, imagina para Ênio que já tinha uma família! Mas o missionário foi firme no propósito e seguiu sem olhar para trás.

A evangelização começou em meados de 1993/94 aqui mesmo em Gravatal e região. Pastor Ênio pegava seu palco móvel e saía pregando a palavra a quem quisesse ouvir. Em 2003 foi com a família para o Mato Grosso e Mato do Grosso do Sul, onde ficou até 2006 quando retornou para Santa Catarina. Dali em diante viajou por várias cidades catarinense, passou a evangelizar em vários Estados brasileiros e não parou mais. Foi até para o Uruguai, Paraguai e Argentina

Durante este período o Pastor constituiu sua família. Quando ainda morava em Gravatal teve os dois primeiros filhos Anderson (28 anos) e Tatiane (25 anos). E quando eles estavam no Paraná veio o terceiro filho, João Marcos (17 anos).

O que Pastor Ênio não imaginava é que uma viagem ao Nordeste, em 2005, mudaria tudo para ele anos depois. O Pastor começou a visitar lugares mais pobres e percebeu que sua missão tinha um propósito maior, a fome e sede das pessoas não eram só de Deus, mas sim de água e comida. “Deus começou a me levar a lugares onde viviam pessoas que lutam para ter o necessário para viver, então passei a arrecadar doações e distribuir nas cidades em que eu fazia evangelizações”.

A nova missão se tornou algo tão grande que dali surgiu o Projeto Sertão Nordestino: uma nova vida, uma nova realidade e desafios ainda maiores. Do projeto surgiram parcerias e amizades que já duram anos, como a do empresário Edoir Schmoeller, de Braço do Norte. Juntos já socorreram muitas famílias, Edoir ajuda a arrecadar as doações e Pastor Ênio faz as entregas.

Eles já visitaram diversos povoados onde a falta de água e comida é constante. Para se ter uma ideia, os nordestinos ficaram sem saber o que é uma gota de chuva durante 7 anos! Ano passado que caiu chuva suficiente para plantação e armazenamento, neste ano está escasso novamente.

Mas eles encontravam um problema muito grande com as doações, recebiam em grande quantidade e não tinham onde guardar. Muitas vezes colocavam roupas e comidas nas igrejas das comunidades, mas acabava atrapalhando a rotina.

Então os planos de rodar o Brasil ficaram para trás, em março o Pastor alugou uma casa em São Lourenço do Piauí e agora vai morar definitivamente no Nordeste para ajudar as famílias de lá. Mas a decisão veio de um pedido bem especial.

“Ano passado Deus me orientou a comprar um terreno na cidade de São Lourenço do Piauí e construir uma base missionária para receber e armazenar as doações a serem distribuídas no Sertão Nordestino. Pedi ajuda ao Edoir, que não pensou duas vezes e agora estamos aqui”.

Edoir comprou material de construção em Santa Catarina e levou pedreiros daqui do Estado. A estrutura tem 300 m2 e foi montada para receber carretas carregadas de doações, e neste domingo chegou o primeiro carregamento da base missionária! Foram 30 toneladas de donativos para distribuir no Sertão do Piauí.

No domingo mesmo Edoir e o Pastor já visitaram alguns povoados, são famílias que não têm geladeira, ventilador, móveis, o fogão é feito de tijolo na rua, em algumas casas as entradas estão sem portas e muitos dormem em rede. Há povoados pequenos com 20 famílias e povoados grandes com até 200 famílias. Algumas têm distância de até 100 km entre si. O povo vive no meio do nada.

“É um choque de realidade muito forte, o Mundo Nordeste não tem nada a ver com  o Mundo Sul em todos os aspectos. As pessoas lutam para ter o que beber e comer. No Sul tem pessoas pobres, isso é fato, mas também tem pessoas para ajudar quem precisa. Aqui o acesso a essas famílias é mais difícil e elas acabam ficando esquecidas”.

Pastor Ênio diz que a seca do Sertão Nordestino castiga a mente dos moradores. “Eles  lutam durante dias e não enxergam uma saída, estão sem emprego, sem comida, sem água e uma família para dar conta”.

Então o Pastor também oferece aos nordestinos um momento de encontro com Deus. “Estes moradores são carentes da benção de Deus, por isso, além de comida também distribuímos bíblias nestas comunidades. Juntamos o útil ao agradável, nem todos os cultos a gente faz ação social (dependendo da nossa programação fazemos em outro horário) e todos os cultos são lotados”.

Sobre os momentos difíceis, Pastor Ênio conta que não são só os moradores que sofrem com a realidade cruel do sertão. Ele mesmo já pensou em desistir, disse que teve sensação de angústia, passou mal, mas volta para casa e lembra que tem uma missão.

“Deus não desce do céu e traz cesta básica, ele usa as pessoas. Deus não depende de mim, mas precisa de mim. É quando lembro que estou aqui para ajudar o próximo e não resolver o problema do mundo”, finaliza.