O Papa Francisco pediu neste sábado à Cúria Romana, o governo da Igreja, uma “profunda mudança de mentalidade” no contexto de um Ocidente em processo de descristianização. “Não estamos mais no Cristianismo, não estamos! Já não somos os únicos hoje a produzir cultura, nem os primeiros nem os mais ouvidos”, afirmou o Pontífice em sua tradicional felicitação. “Já não estamos mais em um regime de Cristianismo porque a fé, especialmente na Europa, mas também em grande parte do Ocidente, não constitui mais um orçamento para conviver juntos. Pior ainda, (a fé) é negada, burlada, marginalizada e ridicularizada”, disse diante de seus principais cardeais.

Esta “mudança de época obriga a uma mudança de mentalidade pastoral”, completou o primeiro pontífice latino-americano da história, que desde sua eleição em 2013 tenta reformar as estruturas internas da Cúria. Francisco advertiu ainda contra a rigidez e a tentação de refugiar-se no passado, no momento em que devem ser feitas “mudanças significativas”. Um grupo de seis cardeais próximos ao Papa está a ponto de terminar a elaboração de uma nova Constituição que administrará o futuro da Cúria Romana e que substituirá um texto precedente promulgado por João Paulo II em 1988.

A articulada premissa chega ao tema da reforma, que, sustenta o Francisco, “nunca teve a presunção de fazer como se antes nada tivesse existido”, mas apostou no contrário “em valorizar tudo o que foi feito de bom na complexa história da Cúria”. “É obrigatório valorizar a sua história para construir um futuro que tenha bases sólidas, que tenha raízes e possa nos levar a um futuro fecundo. Apelar-se à memória não quer dizer ancorar-se na autoconservação, mas reconvocar a vida e a vitalidade de um percurso em contínuo desenvolvimento. A memória não é estática, é dinâmica. Por sua natureza implica o movimento”.

O Pontífice também anunciou neste sábado a limitação a cinco anos, eventualmente renovável, do posto de decano do Colégio de Cardeais, que preside esta instância. Com esta decisão, ele parece querer diminuir o poder do decano. Neste sábado aconselhou aos cardeais que escolham uma pessoa que não acumule outros postos simultaneamente dentro da Cúria. A mudança foi anunciada ao mesmo tempo que a saída do decano atual (no posto desde 2005), o cardeal italiano Angelo Sodano, de 92 anos, que não é considerado próximo a Francisco.

Na conclusão, o Papa citou as palavras do cardeal Carlo Maria Martini que, pouco antes da sua morte afirmou: “A Igreja ficou para trás 200 anos. Por que não se mexe? Temos medo? Medo ao invés de coragem? De qualquer modo a fé é o fundamento da Igreja. A fé, a confiança, a coragem. (…) Só o amor vence o cansaço”.