Zahyra Mattar
Braço do Norte

Um episódio triste e dolorido para a família Becker, de Braço do Norte, teve um desfecho positivo após 18 anos de uma longa e penosa batalha judicial. Em 1992, a empresa Smooth Indústria e Comércio de Calçados fez um empréstimo – R$ 16 milhões, em valores atuais – junto ao Banco do Brasil para expandir os negócios.

Contudo, os juros da dívida foram considerados abusivos e a empresa contestou na justiça. A ação foi proposta no dia 5 de junho de 1992. No fim da ano passado, a justiça deu ganho de causa à indústria.
A sentença da 3ª câmara de direito comercial do Tribunal de Justiça, já transitada em julgado (quando não cabe mais recurso a outras instâncias), reconhece que os avalistas do empréstimo não eram devedores do banco, mas credores em mais de R$ 9 milhões.

Ainda que o desfecho tenha sido satisfatório para a família Becker, um episódio que ocorreu em paralelo ainda é considerado recente na memória de todos.
Em 1993, um ano após a ação ser iniciada, os proprietários da Smooth, Afonso Becker e Lorena Niehues Becker, participavam de um evento na Associação do Banco do Brasil (AABB), quando os gestores da entidade usaram a tribuna para expulsá-los do local.

O motivo: eram considerados devedores do BB, já que eram avalistas da Smooth e, conforme o código de ética da AABB, não poderiam mais frequentar o local. O filho do casal, o hoje advogado Wanderley Becker, tinha 24 anos na época e ainda recorda que via a tristeza da mãe em ser chamada de "caloteira da cidade".
"Minha mãe levou esta culpa para o túmulo. Mas que tem dignidade não tem medo da verdade. E agora a justiça foi feita", destaca Wanderley. Na sede da AABB, ninguém informou ao Notisul o contato do presidente da época para dar a sua versão sobre os fatos.

Um protesto silencioso

Como forma de contar para toda a cidade que sua mãe, Lorena Niehues Becker, e seu pai, Afonso Becker, nunca deveram um centavo para o Banco do Brasil, ainda que tenham sido publicamente acusados disso, o filho do casal, o advogado Wanderley Becker, confeccionou uma placa onde desabafa o que ficou engasgado nos últimos 18 anos.

Conforme manda a lei, que veda o anonimato, ele assina o texto. "Minha intenção não é atacar ninguém, mas incentivar que as pessoas lutem por seus direitos, pela moralidade. Mesmo que minha mãe devesse, ninguém poderia expulsá-la, especialmente diante de todos, em uma tribuna", corrige o advogado.

As placas estão em frente à sua residência, onde moravam seus pais, no KM 2 da SC-438, na divisa de Braço do Norte com São Ludgero. A sede da AABB fica a 50 metros dali. "O meu sorriso, o sorriso da minha família é tortuoso. Rui Barbosa já dizia: justiça tardia é injustiça manifesta. Minha luta não foi por dinheiro, foi por dignidade, por respeito", destaca Wanderley.