O morador de Braço do Norte Roger Virtuoso de Oliveira, teve uma experiência única aos 45 anos. Ele foi o doador de medula óssea de um adolescente de 14 anos. O ato que resultou em um final feliz teve início em 2009, quando ele disse ‘sim’ para a doação e se inscreveu como voluntário no programa de doação de medula óssea.

Roger, que é pizzaiolo conta que tudo começou quando ele viu um cartaz de campanha buscando doadores. “Sou doador de sangue há algum tempo, fiz mais de 30 doações. No decorrer de um dos dias em que faria a doação vi um cartaz sobre medula óssea. Eles buscavam voluntários para doar medula para alguma pessoa que um dia viesse a precisar”, relembra.

Ele conta que para fazer a doação de medula óssea, uma coleta de 5ml de sangue foi feita. Na sequência um rastreamento do DNA do doador é efetuada e os dados são inseridos em um banco de dados. No Brasil quem cuida desse banco de dados é o Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome). “Lá fica um cadastro registrado com todos os dados do doador. Depois, o voluntário pode ou não ser chamado algum dia”, explica.

Vale ressaltar que a chance de um paciente encontrar uma pessoa compatível é de uma em 100 mil. “A maioria que recebe hoje é de familiar, mas quando não dá certo por não ser compatível, eles buscam a Redome para ver a possibilidade de um doador”, pontua.

Após o cadastro em 2009, Roger conta que nunca havia sido chamado. “Depois de quase 10 anos entraram em contato comigo para ver a possibilidade de fazer a doação para uma pessoa que estava precisando e que era compatível com a minha. Foi uma grande felicidade, na hora aceitei”, comemora.

Assim, antes de fazer a coleta, foram necessários alguns exames para constatar que tudo estava certo. “Dia 19 de dezembro de 2018 foi feita a primeira coleta em Tubarão. Depois, dia 9 de janeiro de 2019, foi feita uma nova coleta e deu tudo certo também. Na terceira etapa, o pessoal da Redome indicou um hospital, já em Curitiba para fazer um ‘check-up’ e confirmar se estava apto para a doação”, expõe.

Foram dois dias na Capital do Paraná, 9 e 10 de setembro. Após a confirmação de que não havia empecilhos foi marcada a data da doação. “No dia 23 de setembro de 2019, finalmente pude fazer minha doação e deu tudo certo. É importante salientar que todas as viagens para Curitiba foram de avião e pagas pela instituição. O doador não arca com despesa nenhuma”, conta.

Para Roger o processo foi um pouquinho doloroso, mas nada que não pudesse suportar dada a importância do fato: salvar uma pessoa independente de quem fosse. “Até então não tinha informação nenhuma da pessoa que recebeu a doação”, comenta.

 

Troca de informações paciente/doador

O pizzaiolo só teve informações da pessoa depois de 6 meses. “Novamente tive informações depois de um ano e quando fez 18 meses, a Redome entrou em contato perguntando se havia interesse em conhecer a pessoa que recebeu a doação. A felicidade foi muito grande. Tanto eu quanto a família ficamos emocionados e que gostaria sim de conhecê-lo”, ressalta.

Um relatório foi preenchido e em poucas horas após recebi um e-mail da Redome, passando todas as informações da pessoa para quem doei, a idade, nome do pai, telefone… Na mesma hora liguei para o pai da pessoa. Fiquei muito feliz que minha doação foi para uma criança”, relata.

Felipe, de 14 anos, mora em Criciúma e estava com leucemia mieloide crônica. Graças ao fato de Roger estar cadastrado, o adolescente não precisou aguardar muito para encontrar um doador. “A vontade é grande de ir lá dar um abraço, mas hoje em função da pandemia temos que nos cuidar. O contato foi feito por telefone e videochamada”, explica.

Roger explica que por conta dos cuidados e isolamento que precisam ser mantidos, ele mantém contato com a família do doador. “O pai do menino, o Marcelo, disse que salvei não só o filho dele, mas uma família inteira. Hoje mantemos contato. O mais valioso disso tudo é saber que podemos fazer o bem e que uma criança hoje está saudável graças ao gesto de uma doação”, celebra.

Um dos fatores mais marcantes para o doador foi quando soube que o transplante havia sido feito em um adolescente. “Como tenho filhos imaginei o sofrimento dos pais e desta criança que tem toda uma vida pela frente”, emociona-se.

Vale ressaltar que graças ao fato de Roger estar cadastrado o adolescente teve a sorte de não permanecer por muito tempo na espera. “Ele terminou o tratamento com a quimioterapia antes da cirurgia e em seguida, foi feito o transplante de medula óssea”, recorda.

 

Tipos de doação

O processo de doação de medula óssea pode ser feito de duas formas. A decisão é única e exclusiva do médico e de sua equipe. A definição do método de doação mais adequado é avaliada em cada caso.

Um dos tipos de doação é por meio de procedimento feito no centro cirúrgico, sob anestesia peridural ou geral e requer internação de 24 horas. A medula é retirada do interior de ossos da bacia por meio de punções e o procedimento leva em torno de 90 minutos.

A medula óssea do doador se recompõe em apenas 15 dias. Nos primeiros três dias após a doação pode ocorrer desconforto localizado de leve a moderado, que pode ser amenizado com o uso de analgésicos e medidas simples. Normalmente os doadores retornam as suas atividades habituais depois da primeira semana após a doação.

Já o outro método de doação chamado coleta por aférese, o doador faz uso de uma medicação por cinco dias com o objetivo de aumentar o número de células-tronco (células mais importantes para o transplante de medula óssea) circulantes no seu sangue.

Após esse período, a pessoa faz a doação por meio de uma máquina de aférese, que colhe o sangue da veia do doador, separa as células-tronco e devolve os elementos do sangue que não são necessários para o paciente. Neste procedimento não há necessidade de internação nem de anestesia. Todo o procedimento é feito pela veia.

 

Lição de vida

Roger emociona-se ao falar do ato de doação. Ele lembra que foi um ato instintivo, havia apenas o pensamento de salvar uma vida. Hoje percebe o quanto fez bem a ele mesmo. “Somos todos irmãos. Doar para uma pessoa que não conhecia e hoje saber que salvei a sua vida é um sentimento inacreditável”, avalia.

Para o doador, um dos desejos de seu coração é de que as pessoas sejam doadoras. “Porque ajudar o próximo é a coisa mais linda e gratificante que pode ter no mundo. Espero que as pessoas continuem se cuidando e se tornem doadoras. E logo terei a experiência de dar um grande abraço no meu receptor, e agora, irmão de sangue Felipe”, finaliza.

 

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