O Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgou em agosto, o Atlas da Violência 2020, produzido em parceria com o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Um dos dados que chamaram a atenção foi o aumento do número de assassinatos de pessoas negras e a diminuição desde índice para pessoas não negras, o que evidencia a desigualdade racial no Brasil.

A coordenadora Municipal dos Direitos Humanos, em Tubarão, Aleida Cardoso Corrêa, pontua que a nível mundial, há um longo caminho pela frente no combate às desigualdades sociais e raciais. “O Brasil, país assentado na mão de obra escrava, ainda se configura um país extremamente conservador; onde, podemos afirmar, que o “Brasil”, ainda não co-nhece de fato, quem são os negros (as) brasileiros (as), que aqui estão há tanto tempo; pois deslegitima e invisibilidade uma árdua luta por sobrevivência, pertencimento e reco-nhecimento a essa população”, observa.

Ela destaca que mesmo em época de pandemia, o racismo não dá trégua, aliás, fica cada vez mais evidente a surpresa para quem somente acompanhou pelos noticiários os últimos acontecimentos, mas não surpreende quem é perpassado por esse fenômeno social nesse caso o racismo, do qual os negros são acometidos todos os dias. “Ocorre que, nem em meio ao período de distanciamento social, o racismo se camufla, muito pelo contrário, ele recria mecanismo de desumanização cerceando direitos a quem também é digno dele”, assegura.

Aleida cita que é importante fazer a seguinte pergunta: O racismo piorou? “Não. Ele só passou a ser mais divulgado, e visto por pessoas que sempre tentaram jogar esse assunto para baixo do tapete… como se fosse uma “fórmula mágica”, eu não abordo, logo o racismo fica em segundo plano, como fica subentendido no imaginário de muitos”, expõe.

Segundo ela, na prática a coisa não funciona assim, sendo que, o que se vivencia diante dos olhos nesses últimos anos, é uma escalada perversa que vem se intensificando gradativamente a dizimação dos negros. “Aliás, quem também era para nos dar segurança, se faz presente como algoz em uma instituição que foi projetada para a manutenção como forma de controle de quais vidas importam, e quais à revelia precisam ser exterminadas”, lamenta.

Entre 2008 e 2018, os casos de homicídio de pessoas negras (pretas e pardas) aumentaram 11,5%. Já o número de casos desse tipo de violência em relação a não negros (brancos, amarelos e indígenas) diminuiu 12,9%, no mesmo período. É o que aponta o Atlas da Violência 2020, divulgado no mês passado, pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

O relatório também evidencia, o racismo estrutural que perpassa também os casos de violência no Brasil e aponta, por exemplo, que, para cada pessoa não negra assassinada em 2018, 2,7 negros foram mortos, sendo que estes últimos representam 75,7% das vítimas. Outro dado que reforça essa compreensão, é o fato da taxa de homicídios entre negros chegar a 37,8 a cada 100 mil habitantes, enquanto entre não negros esse número é de 13,9 para cada 100 mil habitantes. Em poucas palavras um jovem negro entre 15 a 29 anos tem quase 3 vezes mais chance de morrer pelo fato de ser negro.

“E se tratando da mulher negra, amargamos desde sempre a base, ou seja, além da falta de oportunidade no mercado de trabalho, baixa incidência nas universidades, em cargos de ascensão, mesmo que mulheres negras por meio da educação, propõem mudanças civilizatórias para a sociedade, somos invisibilidades nas estruturas arraigadas desse país que por muito ainda se concentra no machismo e dentre tantas questões negativas que nos incidem. Precisamos ter entendimento que, para que sejam superadas as desigualdades de gênero e o enfrentamento da violência contra às mulheres negras, é preciso compreender as interseccionalides que as rodeiam; sendo que não podemos falar de raça, sem falar de gênero, sem falar de classe. Mulheres negras, ainda não são pensadas como projeto político, pois amargam a permanência da subserviência para a ‘branquitude’ que muito pouco faz em seu papel de privilégio, o combate a luta antirracista”, explica.

Mulheres negras são as principais vítimas de homicídios; já mulheres brancas compõem quase metade dos casos de lesão corporal e estupro. De acordo com as estatísticas, os números apontam que cerca de 75% das mulheres assassinadas no primeiro semestre deste ano no Brasil são negras. Fora o que não é noticiado.

De acordo com o Atlas, em 2018 uma mulher foi assassinada no Brasil a cada duas horas, totalizando 4.519 vítimas. Nesse quantitativo, estão incluídas as ocorrências de feminicídio, embora não estejam especificadas. E, embora o total de homicídios de mulheres tenha apresentado redução de 8,4%, entre 2018 e 2017, o racismo também fica explicitado quando feito recorte de raça.

O estudo traz nesse panorama, o período entre 2008 e 2018 essa diferença fica mais evidente: enquanto a taxa de homicídios entre as mulheres não negras caiu 11,7%, entre as mulheres negras aumentou 12,4%. “Deste modo, continuaremos trazendo tais questionamentos e perguntando para que a sociedade entenda que somos mais de 49 milhões de mulheres negras que fazem essa pergunta: Quais políticas estão sendo pensadas para proteger as mulheres negras? Os filhos das mulheres negras? E pelo seu bem viver? ”, questiona.

Enquanto não há respostas para essas e outras tantas perguntas, continuará ecoando a voz do negro mesmo que muitos tentam silenciar: “Vidas negras importam!”, finaliza.

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