O ex-professor de inglês Ammar Al Selmo vive com a mulher e o filho de dois anos em Idlib, no noroeste da Síria. Ele teve o mesmo destino dos mais de 12 milhões de compatriotas expulsos de suas casas pela guerra civil que completou oito anos nesta sexta-feira (15).

Selmo trabalha há seis anos como voluntário na organização Capacetes Brancos — um coletivo de socorristas que chegou a ser indicado para o prêmio Nobel da Paz em 2016. Eles costumam atuar em zonas controladas por opositores do regime de Bashar al-Assad.

Os capacetes brancos ficaram conhecidos por serem os primeiros a chegar após os bombardeios e por divulgar na internet imagens de difíceis resgates feitos muitas vezes com instrumentos rudimentares ou com as próprias mãos.

Ele mesmo comprou uma câmera com o amigo para documentar seu trabalho.

“Pensamos que então íamos fazer a diferença ao denunciar aquelas atrocidades, porque isso não deveria acontecer. Mas o mundo silenciou e a guerra continua até agora”, afirmou.

Para ele, as imagens registradas durante o conflito não fizeram nenhuma diferença.

“Hoje temos milhares de fotos vídeos dos crimes que circularam pela América, pela Europa. E o que essas fotos fizeram? Nada! Centenas de milhares foram mortos e nada aconteceu. A gente não espera nada. Só queríamos uma humanidade mais justa”, desabafa.

Como atuam em áreas dominadas por opositores, os capacetes brancos são acusados de abrigar rebeldes entre seus integrantes e de “fabricarem” vídeos impactantes. O regime de Assad e seus aliados russos também colocam em questão a neutralidade do grupo, que é financiado por doações internacionais.

Reconhecimento como socorrista

O conflito sírio teve início em 15 de março de 2011 após protestos pacíficos em Damasco e Deera serem reprimidos com violência pelas forças de segurança do governo. Depois disso, os protestos se transformaram em uma insurreição contra o regime de Bashar al-Assad.

Selmo morava em Alepo, ex-capital econômica da Síria e uma das cidades mais antigas do mundo. Em 2012, o controle da cidade foi dividido entre forças rebeldes e o regime. Em 2013, ele passou a atuar como capacete branco.

Ele conta que detestava “cemitérios e ouvir falar em morte”, mas que durante o conflito já perdeu cerca de 120 pessoas de seu entorno, entre familiares, amigos e colegas de trabalho. “Viver ao lado da tragédia” o fez sentir que “a sua obrigação era ajudar e consolar as pessoas”.

O socorrista conta que o conflito tomou outra proporção a partir do fim de 2013 e início de 2014, quando o Estado Islâmico começou a expandir sua atuação na Síria e o governo passou a lançar “bombas de barril” contra a população civil.

Essas bombas, jogadas por helicópteros ou aviões, são feitas com tambores, tanques de combustível ou cilindros de gás cheios de explosivos e fragmentos de metal.

O potencial destrutivo desse tipo de arma é elevado. Os imóveis desabavam completamente sob impacto dos explosivos tornando o resgate de sobreviventes muito mais difícil. Milhares de pessoas ficaram feridas ou morreram.

“Não tínhamos equipamentos para fazer aqueles resgates, não éramos qualificados para isso. Nessa época, meus amigos deixaram a guerra, eu também pensei em fazer isso.”

Foi o resgate de uma criança em uma área rebelde Al Shaer, na periferia de Aleppo, que fez com que ele mudasse de ideia. Quando sua equipe chegou ao local, encontrou pessoas procurando sobreviventes entre os escombros.

“Um pai pedia desesperadamente: ‘por favor, a minha filha. Ela está viva. Ela é muito doce’. Depois de 40 minutos, nós a retiramos com vida dos destroços. Todos nós choramos. Foi um milagre. Foi então que decidimos que íamos continuar.”

Questionado se ele continuou porque queria buscar mais ‘milagres’, como o do resgate da menina, Selmo lembra que o seu trabalho era feito também de muita decepção.

“Eu não estava em busca de milagres, porque nessa época a gente chorava todos os dias. Nossa motivação era olhar o nosso entorno. As pessoas nos respeitam, nos amam, demonstram muito carinho na rua, em toda parte”.