Amanda Menger
Laguna

Diversos especialistas da região já disseram: teremos uma nova enchente de proporções iguais ou superiores a de 1974. Quando? Ninguém pode determinar (ao menos por enquanto, já que a tecnologia utilizada na previsão do tempo evolui cada vez mais). Exatamente por isso, é preciso trabalhar com ações que minimizem os estragos, em especial a vida humana. E é este o alerta dado pela União dos Pescadores da Amurel (Unipesca), de Laguna.

Integrantes da entidade estão preocupados com o assoreamento da barra que liga a Lagoa Santo Antônio dos Anjos, em Laguna, com o mar. É que, com o vento nordeste, a areia das dunas é jogada dentro do canal, provocando o assoreamento. “Isso, além de prejudicial para a pesca, é um problema em caso de enchente. Se o vento for de leste, a chamada lestada, e a maré estiver alta, com a formação de bancos de areia dentro da barra, a água do Rio Tubarão não chegará ao mar. E o que acontecerá? Uma catástrofe pior do que a de 1974. Tubarão poderá ser varrida do mapa”, adverte o presidente da Unipesca, Renato Vieira de Oliveira, o Ferrinho.

Em novembro, a situação chegou a preocupar, segundo Ferrinho. “O pior só não ocorreu porque as chuvas não foram fortes nos municípios que estão ao pé da serra e que ‘alimentam’ o Rio Tubarão, além disso, a maré estava baixa e o vento, apesar de ser de leste, não foi forte. Mas isso mostra que com a natureza não se pode brincar e temos que estar precavidos, em especial Tubarão e Lauro Müller, porque já sofreram com fortes enchentes”, recomenda o presidente da Unipesca.

Entidade sugere retirada das
dunas. Proposta é polêmica

Se o assoreamento da barra em Laguna é um dos fatores que pode influenciar em uma nova enchente, além de dar o alerta, a União dos Pescadores da Amurel (Unipesca) dá também uma sugestão, no mínimo, polêmica.
“Para resolver isso, só tirando as dunas. Mas tem que levar para longe, porque não basta ‘arrastar’ alguns metros. Com as correntes de vento, a areia igual é jogada no canal e continua a formar bancos de arreia”, observa o presidente da Unipesca, Renato Vieira de Oliveira, o Ferrinho.

O pescador Jaíson Carneiro também reclama das dunas. “Para a pesca, também é ruim. Com esta quantidade de areia, não há condições de vida para os peixes. Além disso, diminui a profundidade do canal e torna mais perigoso para os barcos chegarem até o porto pesqueiro”, reclama o pescador.
O nível de assoreamento da barra não é conhecido, seria necessário realizar uma baquimetria para calcular a quantidade de areia depositada no canal. “Esta obra do molhe sul é um mistério. Demoraram um bom tempo para terminar e, em vez de ajudar, parece que só piorou a nossa situação”, diz o pescador.

A obra, feita com recursos federais, tinha como objetivo dar segurança aos barcos que chegam ao porto pelo canal. “Aí está um problema. Disseram que a barra ficaria com nove metros, depois mudaram para seis, não sabemos o que foi feito. Tem dias que a barra tem três, quatro metros apenas, por causa da areia das dunas ”, observa Jaíson.

Órgãos ambientais tem outra visão

A proposta de retirada das dunas é possível. Mas há diversos pontos que precisam ser observados. É o que afirmam representantes da Fundação de proteção ao Meio Ambiente (Fatma) e do escritório da Área de Proteção Ambiental (APA) da Baleia Franca.

“Isso é algo que precisa ser bem estudado. Talvez seja possível, mas seria preciso um projeto, com estudo de impacto ambiental e outros pré-requisitos, que só poderíamos determinar se essa solicitação chegasse oficialmente para nós. Além disso, o pedido teria que ser feito pelo município, não apenas por uma entidade representativa. Mas é algo que podemos conversar. Estamos abertos ao diálogo e a consultas da comunidade”, explica o gerente regional da Fatma, em Tubarão, Cidinei Galvani.

O ponto de vista do gerente da Fatma é o mesmo da chefe do escritório da APA da Baleia Franca, Maria Elizabeth Rocha de Carvalho. “Primeiro temos que ver de quem é competência, tanto para pedir a retirada quanto para analisar esta solicitação. Mas há outra questão que é preciso ser observada. A formação de dunas na região de Laguna é algo que faz parte da geografia e da dinâmica do local. Mesmo com a retirada, a ação dos ventos pode voltar a formar as dunas, com a areia existente no mar. Além disso, um projeto de impacto ambiental (EIA/Rima) destes poderá ser muito caro”, afirma Maria Elizabeth.

A chefa do escritório da APA faz outra proposta. “Como as dunas voltariam a se formar, o mais indicado ali seria a presença de uma draga, fazendo um trabalho constante para evitar o assoreamento. E, neste caso, penso que a Companhia de Desenvolvimento do Estado (Codesc) poderia ajudar, com a parte técnica e de recursos”, sugere Maria Elizabeth.

Prefeitura
Para resolver o problema de assoreamento, a prefeitura de Laguna diz que há um projeto de retificação da barra. “Já conseguimos R$ 300 mil para uma primeira parte. Vamos licitar em breve para dessassorear o porto antigo de Laguna, na parte das docas. Conseguimos com a Secretaria Nacional de Aquicultura e Pesca (Seap) uma draga de pequeno porte para fazer alguns trabalhos pontuais, de limpeza nas áreas os pescadores estão. Isso faz parte de um projeto da prefeitura de construção de trapiches na lagoa”, afirma o prefeito de Laguna.