Há 100 dias, desde o rompimento da Barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, a vida de José Antônio Soares está em suspenso. Assim como outras centenas de famílias, ele perdeu uma filha na tragédia.

Lays Gabriele de Souza Soares, de 14 anos, estava com a mãe, Alessandra Souza, e com a tia, Talita Cristina Oliveira, na casa anexa à Pousada Nova Estância que desapareceu sob a lama de rejeitos. José, que trabalhava no local como supervisor de serviços gerais, estava em Belo Horizonte.

“Eu não tenho sossego, eu não tenho paz, eu não tenho mais tranquilidade na minha vida. Não tenho dormido, não tenho me alimentado direito. Nestes 100 dias a minha vida virou um inferno”, disse ele.

Alessandra e Talita foram resgatadas por dois moradores de Brumadinho. As duas foram levadas para o Hospital de Pronto Socorro João XXIII em Belo Horizonte e depois transferidas para uma instituição particular, cujas internações foram bancadas pela Vale. Alessandra chegou a ter alta semanas depois, mas foi obrigada a voltar para o hospital depois que uma fratura no crânio foi detectada.

“Ela vai passar por uma reconstituição. Vai ter que colocar uma placa na cabeça”, contou José.

Talita, de 15 anos, está internada desde o dia 25 de janeiro, quando houve o rompimento da barragem. A adolescente está tendo que reaprender a andar após ter sofrido várias fraturas na bacia e na perna esquerda. Ela passou por mais um procedimento nesta sexta-feira (3) e ainda terá que fazer outra cirurgia para reconstruir o quadril.

Após perder a filha, a casa e o emprego na tragédia, José se apoia nos parentes para buscar forças.

“Se eu estivesse sozinho, nem sei o que eu teria feito. Teria feito, sei lá, até uma loucura. Já teria feito uma besteira com a minha vida”, contou.

De acordo com o último boletim da Defesa Civil, 235 mortes foram confirmadas. Ainda há 35 pessoas desaparecidas.

“É muita dor, muita tristeza, muita revolta”, disse José.