Rosa Maria, Angelo, Fernando e Antonio. Fernando está vivo graças a uma doação, feita há quatro anos. Os outros três optaram por doar os órgãos de Célio há dois meses
Rosa Maria, Angelo, Fernando e Antonio. Fernando está vivo graças a uma doação, feita há quatro anos. Os outros três optaram por doar os órgãos de Célio há dois meses

Karen Novochadlo
Tubarão

Onze dias após a retirada de um tumor do seio, a tubaronense Rosa Maria Magneskai da Rosa recebeu a notícia da morte do marido, Célio da Rosa, devido a um AVC. Mesmo diante da dor da perda, ela não teve dúvidas: optou por doar os órgãos dele. 
 
No ano passado, 29 córneas e três doações de múltiplos órgãos foram feitas no Hospital Nossa da Conceição (HNSC), em Tubarão. Desde 2002, foram realizadas 80 captações de córneas e 14 de múltiplos órgãos. O marido de Rosa foi um dos doadores. “Ele era uma pessoa muito bondosa. Jamais se negaria a isso”, revela a esposa. Célio morreu há cerca de dois meses.  
 
Rosa lembra que foi um choque ver o marido ligado aos aparelhos, mas com morte cerebral decretada. “Não queríamos que outra família passasse pelo o que nós passamos”, reflete o filho do casal, Ângelo. 
 
A cada ano, aumenta o número de captações no HNSC. Parte deste trabalho deve-se à equipe do hospital, que está cada vez mais capacitada para fazer a abordagem da família, a entrevista. E também a conscientização das pessoas. 
“Eu pensei que, mesmo morto, meu pai deixou um pedacinho e fez algo bom”, explica Ângelo, que, junto com a mãe, optou pela doação. 
 
A enfermeira Samira da Silva Jeremias, integrante da Comissão Intra-Hospitalar do Hospital de Doações de Órgão e Tecidos para Transplante (Cihdott) do HNSC, explica que é importante que quem deseja doar os órgão compartilhe este sentimento com a família. “Às vezes, os familiares ficam inseguros porque não sabem a vontade da pessoa”, justifica Samira.
 
Uma vida de gratidão ao doador
Fernando Cezar Pereira dos Santos, 49 anos, tem uma nova vida. Mas, por causa do anonimato da doação, não sabe quem pode fornecer esta nova chance a ele. Não sabe a cor, a idade, a posição social. Contudo, não pode deixar de ser grato a todos que encontra, que podem ser familiares do doador. 
Em 2000, ele descobriu que era portador de hepatite C, e cirrose. O tratamento com remédios causou complicações. Mesmo morando em Florianópolis, na época, os médicos o aconselharam a entrar na fila de transplantes em São Paulo.  Cinco anos mais tarde, descobriu um câncer. “Quando eu descobri o câncer, achei que não tinha futuro. Foi numa época em que a minha doença estava controlada e me sentia bem”, revela. 
A medicina no estado catarinense evolui em muito neste período. Ele abandonou a fila em São Paulo e cadastrou-se em Blumenau. Um mês depois, recebeu um novo fígado. Há alguns anos, ele dedica-se a ajudar os portadores de hepatite B e C e também a quem está na fila de transplantes. Ele é presidente do grupo Hércules. Também tem uma vida saudável. E destaca que a doação foi feita por quem não esperou nada em troca, o que torna o ato ainda mais especial. “A minha gratidão é para todos”, declara.
 
Evento capacita equipe do hospital
Ontem, no Dia Nacional de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante, o Hospital Nossa Senhora da Conceição (HNSC), em Tubarão, realizou o 1º Seminário de Doação e Captação de Órgãos e Tecidos. As palestras foram ministradas por profissionais do HNSC e da SC Transplantes. 
Entre os palestrantes, estava a enfermeira Juliana Martins Costa, da SC Transplantes, que falou sobre a história dos transplantes, legislação e estatística no estado. O neurocirurgião Marcos Ghizoni abordou o tema ‘Diagnóstico de Morte Encefálica’. O médico intensivista do HNSC, Vilto Michels, palestrou sobre a manutenção do potencial doador. ‘Entrevista Familiar’ foi o tema da palestra da enfermeira Neide da Silva Knischs, da SC Transplantes de Brusque. Na programação, constou o relato de famílias de doadores e pacientes transplantados e a apresentação do trabalho realizado no HNSC, na palestra da enfermeira Priscila Redivo.
 
Como é feita a doação?
O caminho para captação de órgãos é longo, demora em média 24 horas. Para determinar a morte cerebral de um paciente, por uma questão de segurança, são realizados vários testes, que levam 12 horas. Assim que ocorre o falecimento, a equipe do hospital conversa com a família.
Em seguida, os exames são enviados por fax e as amostras de sangue de ônibus para a central de transplantes em Florianópolis. Caso a pessoa esteja apta para ser um doador, uma equipe de médicos vem da capital para realizar a coleta.
Muitas vezes, chegam de helicóptero a Tubarão. A equipe corre contra o relógio, afinal, alguns transplantes precisam ser realizados imediatamente.