Manifestantes ocuparam a frete da Igreja Nossa Senhora do Rosário de São Benedito, construída por escravos 1737. Eles alegam que o ato foi pacífico. O arcebispo de Curitiba contrapõe. Segundo ele o ato foi cheio de agressividade e ofensas - Foto: Reprodução Instagram @renatofreitasvereador

Um protesto contra a morte do imigrante congolês Moïse Kabamgabe, em Curitiba, capital do Paraná, terminou com a ocupação da Igreja Nossa Senhora do Rosário de São Benedito, no bairro São Francisco. Kabamgabe foi espancado até a morte em um quiosque na zona oeste do Rio de Janeiro no dia 24 de janeiro.

Em Curitiba, o ato organizado pelo Coletivo Núcleo Periférico, contra o racismo, a xenofobia e pela valorização da vida, começou em torno das 17 horas e, de acordo com os manifestantes, um pouco depois do início, o padre teria começado a empurrar os manifestantes que estavam na escadaria da igreja.

Neste momento, as pessoas presentes começaram a gritar ‘racista’ para o padre, que fez sinal de positivo com as mãos. Os manifestantes ocuparam a igreja em forma de protesto. Conforme declarações de presentes, o vereador Renato Freitas (PT) teria coordenado a suposta invasão da Igreja.

Conforme nota do parlamentar, o local da manifestação foi escolhido pela relação histórica com a população negra curitibana. A igreja, inaugurada em 1737, foi construída por e para pessoas escravizadas, uma vez que eles não podiam entrar em outras igrejas da região por conta da cor da pele.

A manifestação foi organizada e coordenada pelo Coletivo Núcleo Periférico, de Curitiba, e reuniu centenas de representantes do movimento de negros, de mulheres e de imigrantes que vivem na capital paranaense – Foto: Reprodução Instagram @renatofreitasvereador

“A manifestação foi realizada em memória e por justiça para Moïse Kabagambe (24) e Durval Teófilo Filho (38), dois homens negros brutalmente assassinados nos últimos dias. O ato contou com a participação de representantes do movimento negro, movimento de mulheres e diversos imigrantes que residem em Curitiba e relataram violências racistas nesta cidade”, escreve o vereador.

Segundo o vereador, durante o ato um diácono responsável pela igreja solicitou que os manifestantes fossem para outro local, sob a justificativa de que a manifestação não deveria coincidir com a saída dos religiosos da missa que havia se encerrado.

“Como parte simbólica da manifestação, entramos juntos na igreja que estava vazia, relembrando que nenhum preceito religioso supera o amor e a valorização da vida. Pacificamente, assim como entramos na igreja, saímos e seguimos com a manifestação, reivindicando políticas públicas para imigrantes e de combate ao racismo na cidade”, descreve Freitas na nota.

E finaliza: “Nos surpreende perceber que exaltar o amor e a valorização da vida em uma igreja causa mais indignação mais que o assassinato brutal de dois seres humanos negros no Brasil”. A Arquidiocese de Curitiba também se pronunciou sobre o ocorrido afirma que tem posicionamento de repúdio o que chama de “profanação injuriosa.

Conforme nota assinada pelo arcebispo Dom José Antonio Peruzzo, o ato começou no mesmo horário de celebração da missa e, mesmo após solicitação para que não tumultuassem o momento litúrgico, lideranças do grupo instaram a comportamentos invasivos, desrespeitosos e grotescos.

Manifestação reuniu milhares de pessoas no Lago da Ordem, em Curitiba. Em nota, a Arquidiocese de Curitiba repudiou o ato e o classificou como “profanação injuriosa” – Foto: Reprodução Instagram @renatofreitasvereador

“É verdade que a questão racial no Brasil ainda requer muita reflexão e análises honestas, que promovam políticas públicas com vistas a contemplar a igualdade dos direitos de todos. Mas não é menos verdadeiro que a justiça e a paz nunca serão alcançadas com destemperos ou impulsividades desequilibradas”, escreve o arcebispo na nota.

Conforme Dom Peruzzo, a igreja é visitada por muitos afrodescendentes que sempre primaram pelo profundo respeito, até mesmo quando não católicos. “Infelizmente, o que houve no último sábado foram agressividades e ofensas. É fácil ver quem as estimulou”, anota o líder católico. O arcebispo ainda pontua que, na visão da Arquidiocese, “a lei e a livre cidadania foram agredidas. Por outro lado, não se quer “politizar”, “partidarizar” ou exacerbar as reações. Os confrontos não são pacificadores”, acusa.

 

O caso Moïse Kabamgabe

Moïse Kabamgabe, de 24 anos, foi morto por três homens após cobrar as diárias atrasadas do dono do quiosque onde trabalhava – Foto: Arquivo da família

O congolês Moïse Kabagambe, de 24 anos, foi morto no dia 24 de janeiro no Rio de Janeiro. Ele trabalhava por diárias em um quiosque na Barra da Tijuca, na zona oeste da cidade. Moïse, sua mãe e os irmãos vieram para o Brasil como refugiados políticos em 2014. Segundo a família, ele foi vítima de uma sequência de agressões após ter cobrado dois dias de pagamento atrasado. Seu corpo foi achado amarrado em uma escada.

A Delegacia de Homicídios da Capital, que investiga o caso, analisou as imagens das câmeras de segurança para tentar esclarecer o crime. Pelo menos 12 pessoas já foram ouvidas e três homens foram presos, no dia 1º deste mês, pelas agressões e morte de Moïse.

Eles deverão responder por homicídio duplamente qualificado — com impossibilidade de defesa e uso de meio cruel. O processo corre em sigilo. Nesta quarta-feira (2), a juíza Isabel Teresa Pinto Coelho Diniz, do Plantão Judiciário da capital, decretou a prisão temporária do trio, a pedido do Ministério Público.

 

O caso Durval Teófilo Filho

Durval, de 38 anos, tentava entrar em sua casa e foi morto pelo vizinho, o sargento da Marinha Aurélio Alves Bezerra – Foto: Arquivo da família

A Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSGI) encerrou no último sábado (5) o inquérito que investiga a morte de Durval Teófilo Filho, de 38 anos, assassinado na porta de casa. O acusado do crime, o sargento da Marinha Aurélio Alves Bezerra, seu vizinho, responderá pelo crime de homicídio doloso (com intenção de matar).

Conforme as investigações, Durval estava tentando abrir o portão de sua garagem, cujo controle não estava funcionando. Ao se agachar para tentar abrir manualmente, foi vítima de disparos. O acusado, vizinho da vítima, alega que matou Durval porque o confundiu com um ladrão.

 

 

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