Liliane Dias

Pescaria Brava

No dia 22 de fevereiro de 2016, Erica Rocha, foi diagnosticada com Leucemia Linfoide Aguda (LLA). Ela estava com 15 anos, mas isso não abalou a sua fé e nem a sua vontade de viver. Com a mesma alegria de sempre, a jovem de Pescaria Brava deu início ao tratamento na esperança de um final feliz. Porém, a sua vida foi interrompida no último dia 13, oito dias antes da audiência que lhe daria a oportunidade de recomeçar. 

De acordo com a mãe de Erica, Marli Vieira Rocha, quando ela foi diagnosticada foi transferida de Tubarão para Florianópolis, pelo do Sistema Único de Saúde (SUS). “Ali começou a nossa luta. Ela iniciou as sessões de quimioterapia sempre sorrindo. Todos os quatro meses e 25 dias hospitalizada, mesmo com toda a dificuldade, estava sempre esperançosa”, relembra.

Após esse período, Erica retornou para casa. “Cheguei a acreditar que ela não fosse conseguir vencer aquela fase, foi muito sofrimento, mas aquela batalha ela venceu”, completou a mãe. Por dois anos a jovem ficou em casa com uma vida normal até que a doença voltou. “Ela tinha uma vida normal, para nós estava curada, mas os médicos constataram que seria necessário um transplante. Ficamos apavorados por não saber como lidar com essa situação”, pontua.

Marli explica que tudo ocorreu muito rápido. “Só voltou e já seguimos para São Paulo, para a realização do transplante que ocorreu dia 29 de julho. Na época o pai foi o doador. Foi mais um período difícil porque 100 dias após, veio o diagnóstico de que mesmo com o transplante ela não tinha ficado boa. Naquele momento, parece que Erica perdeu a alegria, pois nem os médicos conseguiram explicar o que houve para a doença ter permanecido na medula, a célula ficou ali e não limpou a medula”, recorda.

Com o retorno à Florianópolis, retomaram também as sessões de quimioterapia. “Dali para a frente o sofrimento foi ainda maior, ela já não estava suportando mais a dor e o cansaço. Os médicos chegaram a desenganar, porque ela estava muito mal”, explica. Foi quando surgiu uma nova esperança para a vida de Erica.

Os médicos afirmaram que um medicamento poderia desacelerar o processo de proliferação do câncer. “Nessa hora os advogados orientaram que fossemos no fórum conversar com o juiz para tentar agilizar o processo. A preocupação era com o tempo, pois minha filha estava muito mal e precisávamos da liberação antes que ela viesse a falecer. Essa medicação ajudaria a paralisar a doença, para que ela pudesse fazer um novo transplante, no qual eu seria a doadora”, relembra.

Em meio a esse processo foi necessário retornar à Florianópolis, pois o quadro de Erica estava muito avançado. “Os médicos não falaram nada, mas eu já estava ciente de tudo que poderia vir a ocorrer com ela porque dependia dessa medicação. Infelizmente o tempo que tínhamos não foi suficiente para que pudesse se recuperar”, lamenta.

“Ela poderia estar viva”

Para Marli, a burocracia do judiciário foi o que comprometeu um possível ‘final feliz’ para Erica. Ela acredita que se o sistema fosse mais ágil, sua filha poderia ter conseguido o tempo necessário para realizar um novo transplante. “A esperança era essa medicação, sempre conversávamos, sempre estávamos juntas, com uma enorme esperança. Já planejávamos voltar à São Paulo e fazer esse novo transplante. Mas infelizmente ela se foi antes de conseguirmos realizar nossos sonhos”, finaliza. 

Decepção

No sábado, 11 de janeiro, Erica ficou muito mal e as pressas os pais optaram por levá-la a Florianópolis. Em virtude de movimento intenso na BR-101 e dificuldades de trafegar solicitaram o auxílio da ambulância do pedágio. 

“Não sei se eram enfermeiros ou médicos que atenderam minha filha, mas disseram que não poderiam fazer nada por ela, porque o médico que estava de plantão não autorizou a levar minha filha. Perguntei o motivo e disseram que tinha ocorrido algo semelhante na semana anterior. Outra menina com leucemia, com o mesmo problema que a minha filha e o mesmo sintoma veio a falecer ali mesmo porque já estava em óbito. Falei que eles não sabem a situação da minha filha, se ela está em fase terminal. Eles argumentaram que não haviam dito isso, só que o médico responsável não havia liberado para que eles pudessem fazer o socorro”, relata a mãe. 

E continuou: “Aquilo me doeu muito, sai dali chorando e a minha filha gritando de dor. Não sabíamos o que fazer, fomos em dois postos policiais pedir ajuda e não conseguimos, meu esposo e eu chegamos a conclusão que iriamos pela fé. Seguimos em frente e conseguimos chegar no hospital”, emociona-se. 

Entenda o caso

A medicação era necessária para garantir a Erica condições de seguir no aguardo do transplante. O valor seria de aproximadamente 15 mil reais por comprimido. Como a solicitação da médica, foi de 28 comprimidos, o necessário para iniciar o tratamento ultrapassaria os 380 mil reais.

Em virtude da urgência do caso, mesmo que fosse realizada uma campanha, havia uma corrida contra o tempo, assim a família optou em entrar com o pedido na justiça, por acreditar que o processo seria mais rápido, o que infelizmente não ocorreu.

Sobre os prazos

Marli explicou a equipe de reportagem do Portal Notisul, que fez o pedido da medicação entre os dias 14 e 15 do mês passado. Entre os dias 17 e 18 do mesmo mês esteve no fórum pedindo agilidade no processo devido à urgência. Novamente direcionou-se ao fórum entre 26 e 27.

“Quando iniciou o ano fui mais uma vez pedir que acelerassem a liberação do medicamento. Dia 6, quando voltaram a trabalhar estive lá novamente. Aí marcaram a audiência e a perícia para o mesmo dia: 21 de janeiro”, lamenta. 

Mesmo com toda a luta, o câncer venceu o prazo da justiça. “A levaria no dia marcado, provavelmente já sairíamos de lá com a liberação, mas, não deu tempo…”, finaliza.