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Depois da canonização de Irmã Dulce, que desde a manhã de domingo pode ser chamada de “Santa Dulce dos Pobres”, cresce a atenção para os próximos nomes na “lista” dos possíveis futuros santos do país. 

A beatificação é o passo anterior à canonização, quando a pessoa passa a ser considerada santa. O Brasil já tem 52 processos de pessoas que viraram beatos pela Igreja Católica, mas, dessas, só seis nasceram no país, o restante são estrangeiros que viveram e morreram em solo brasileiro.

Metade desses casos são das brasileiras beatificadas que foram vítimas de feminicídio: Albertina Berkenbrock, Benigna Cardoso da Silva e Lindalva Justo de Oliveira, que foram assassinadas por homens que não aceitaram terem sido rejeitados.

Albertina (1919-1931) foi morta aos 12 anos em Imaruí, após tentativa de estupro por um funcionário da fazenda do pai dela. Seu túmulo virou ponto de peregrinação de fiéis atrás de graças.

Benigna (1928-1941) também morreu jovem, aos 13 anos. Ela vivia no sertão de Santana do Cariri, Ceará, e foi assassinada por um adolescente que a assediava. Sua beatificação foi confirmada no último dia 3 de outubro. Ela é aclamada como “Heroína da Castidade”.

Já Lindalva (1953-1993) era assediada por um homem que foi acolhido pelo Abrigo Dom Pedro II, em Salvador, onde a freira potiguar prestava assistência a anciãos desabrigados. Após a recusa dela, ele a matou com 40 golpes de facão enquanto a mulher servia o café da manhã. O assassino se sentou na porta do abrigo e esperou a polícia chegar.

“Eu não poderia dizer com precisão quais processos estariam mais próximos da canonização. Mas eles estão se desenvolvendo, desde 2017, com bastante celeridade”, afirmou Dom Jaime Rocha, bispo de Natal e presidente da Comissão Especial da Causa dos Santos da CNBB.

Os outros beatos brasileiros são Francisca de Paula de Jesus , milagreira mineira conhecida como Nhá Chica; Padre Victor, filho de uma mulher escravizada que pode ser o primeiro santo brasileiro negro; e o coroinha Adílio Daronch, mártir do Rio Grande do Sul.

As etapas até a canonização

O processo para a canonização tem três etapas. Quando se abre a causa oficialmente, ainda na diocese, o postulante se torna servo de Deus. Atualmente, há 68 processos abertos nesse estágio no Brasil.

Entre os nomes mais conhecidos nessa etapa estão Odete Vidal de Oliveira, a Odetinha, carioca que morreu com apenas 9 anos e tem fama de milagreira; Zilda Arns , médica fundadora da Pastoral da Criança e da Pastoral da Pessoa Idosa que morreu em um terremoto no Haiti; o padre surfista carioca Guido Vidal Schäffer; e até a Princesa Isabel.

Passada esta etapa, o processo segue a Roma e, se aprovado, o postulante vira venerável. Atualmente, há 15 processos abertos no Brasil, sendo seis de pessoas nascidas em território nacional e o restante de estrangeiros que morreram no país. Um deles é Nelsinho Santana, cuja história conta que ele escolheu morrer no dia de Natal em 1964 após dois anos internado num hospital paulista convivendo com doenças.

O passo seguinte é a comprovação de um milagre ou de um martírio (quando a pessoa prefere morrer a macular sua fé) para se tornar beato, última etapa antes da canonização.

Para a Igreja Católica, por exemplo, Albertina, Benigna e Lindalva preferiram morrer a pecar, portanto a beatificação delas veio por meio de martírio.

Dom Hélder Câmara na lista

Um dos nomes mais populares da lista de possíveis santos brasileiros é Dom Hélder Câmara, considerado um servo de Deus. O processo foi aberto em 2015 na Arquidiocese de Olinda e Recife, onde ele foi bispo entre 1964 e 1985, e atualmente está sendo apreciado no Vaticano.

“Essa parte (no Vaticano) vai averiguar as virtudes heroicas de fé, esperança e caridade do postulante”, diz o padre João Cláudio, historiador e assessor do Escritório das Causas dos santos no Rio de Janeiro.

Conhecido como o “Arcebispo vermelho”, Dom Hélder se contrapôs à ditadura militar brasileira e passou a ser visto como um líder na defesa dos direitos humanos.

O dossiê de dom Hélder, organizado pelo frade franciscano Jociel Gomes, tem 197 páginas com a biografia do religioso e 54 depoimentos de pessoas que conviveram com o religioso. Ele morreu aos 90 anos, em 1999.

Caso seja aprovado, dom Hélder passa a ser venerável, e o processo segue para a investigação de milagres. Caso haja comprovação de um caso, Dom Hélder vira beato. No segundo, torna-se santo.