Não é necessário ir muito longe para encontrar alguém que fez da superação o elemento fundamental de sua vida. De certo modo, todos uma hora temos que enfrentar algum obstáculo para conquistar os nossos objetivos. Kévilyn Marnoto, de 24 anos, de Armazém, não possui apenas uma história de vida emocionante, ele tem um testemunho de perseverança que motiva corações.

A falta de recursos financeiros foi o maior obstáculo que ela e sua família tiveram na vida. A jovem desde criança enfrentou e passou por muitas dificuldades. Com apenas 12 anos, a menina ajudava a sua mãe em uma pequena malharia nos fundos da casa, à tarde seguia para a escola e à noite fazia companhia a uma senhora.

Entre tantas dificuldades Kévilyn conta que uma das que mais lhe marcou foi um momento da sua infância, quando a sua mãe pagava todas as despesas, inclusive o aluguel sozinha. “Lembro que uma vez a única coisa que tínhamos para comer era um ovo frito com farinha. A minha mãe dividiu entre minha irmã e eu. Ela não comeu nada. Essa situação doeu”, lembra.

Além dos problemas financeiros, a menina tinha inúmeros problemas de saúde como, arritmia cardíaca, asma, pneumonia e foi acometida com a gripe H1N1. Por causa das complicações da H1N1, ela constantemente estava no hospital. “A minha força estava nos estudos e a melhor hora do dia era ir para a escola, ou quando a diretora da Escola de Educação Básica Monsenhor Francisco Giesberts, vinha me buscar para fazer teatro. Sempre tive o incentivo da minha mãe, que apesar de não ter estudado dizia que um futuro brilhante estava por vir”, expõe.

A mãe da jovem, Adriana Liberato, conta que aos 13 anos, o livro de cabeceira da filha era o dicionário, ela lia, relia e anotava palavras e conceitos. Segundo ela, a menina sempre chamou atenção pelo carisma e bom humor até que a sua vida teve uma reviravolta permeada por lágrimas e sofrimento.

Em 2012 a família descobriu que Kévilyn estava com estenose pilórica, uma doença em que os músculos do piloro (ligação do estômago com o intestino) impedem a entrada de alimentos no intestino delgado. A partir daquele momento, a garota e seus familiares travaram uma batalha pela vida, entre idas e vindas aos médicos, que não sabiam o que fazer. A doença era considerada rara e avançada para a sua idade.

Por causa do diagnóstico e da doença, a garota passou a pesar menos de 30 quilos. Foram feitos diversos tratamentos. Ela tomava anestesia quase todos os dias e cada procedimento custava mais de R$ 500. Além dos familiares a menina contava com o apoio do padrasto. A jovem sempre questionava se aquela situação que estava passando era viver com ‘dignidade’, uma palavra que aprendeu lendo o dicionário, mas que não conseguia conceituar em verdade.

Em um exame, o médico responsável pelo tratamento da garota, descobriu que além da estenose havia também um tumor no estômago. Desta maneira, o profissional a encaminhou para um especialista. No dia da consulta, o médico disse que ela precisaria de uma cirurgia e que deveria ser marcada com urgência.

A mãe talvez sem entender a gravidade da situação ou ainda por não ter como conseguir o valor da cirurgia, visto que tudo que tinha foi gasto no tratamento pediu ao especialista um mês para se organizar e conseguir o dinheiro, quando lhe foi dito que a sua filha não tinha um mês de vida. Com um empréstimo e um evento beneficente realizado por amigos da família, a cirurgia foi realizada na semana seguinte a da consulta, em 22 de julho de 2013.

No entanto, houve um rompimento e dois dias após Kévilyn foi novamente levada rapidamente ao centro cirúrgico. Horas após o término do procedimento cirúrgico, o financeiro do hospital chamou a mãe da jovem. Eles cobravam o valor da cirurgia, e informaram que a garota seria transferida para um leito do SU, pois o valor pago foi pela primeira e já que não tinham como pagar a segunda teriam que seguir as normas.

A mãe subiu para o quarto ao lado da filha sem saber o que fazer, sem dinheiro só lhe restava chorar e pedir a proteção divina. O medo de Adriana naquele momento era de que a jovem fosse acometida com uma infecção em meio de tantas doenças.

Ainda no quarto semi-privativo duas idosas ameaçaram fazer greve de fome, caso a menina fosse transferida, pois ela corria sério risco de infecção generalizada. Conforme a mãe, não havia palavras que podiam descrever tamanha angústia e aflição.

Ainda nos primeiros dias após a cirurgia, o médico estava na cabeceira da cama e Adriana ao lado da filha e Kévilyn olhou para eles com semblante pálido e voz fraca, prometeu que sairia daquela cama de hospital e se tornaria a melhor advogada em direito médico. A adolescente afirmou que com o seu trabalho iria garantir as pessoas o direito mais primordial de todos: a vida.

Ela sabia que precisaria lutar muito para cumprir a sua promessa e no mesmo ano, em 2013 fez a prova do ENEM, e obteve bom resultado. Continuou estudando e repetiu a prova em 2014, quando estava no 3º ano do ensino médio. Com a nota conseguiu uma bolsa de estudos do PROUNI ingressando no curso de direito no início de 2015, no Centro Universitário Barriga Verde.

Foi uma jornada árdua de 5 anos de estudos, com as mais diversas dificuldades, pensou em desistir inúmeras vezes, mas seguiu firme no seu propósito. No início de 2019, quando ainda estava no 9º semestre da faculdade prestou o temido exame da ordem e foi aprovada com louvor nas duas fases.

Com a colação de grau em maio de 2020, deu entrada na documentação, e no dia 8 de agosto passado se tornou advogada. Desde então, se dedica a cumprir a sua promessa, lutando para que as pessoas tenham consciência sobre os seus direitos à saúde.

Atuante trabalha na área do direito médico e hospitalar e é pós-graduanda em processo penal. “Por trás de cada diagnóstico há uma vida que pulsa no coração, o sangue que corre pelas veias do enfermo, que acima de qualquer doença é um ser humano e como tal merecedor de dignidade”, pontua.

Ela destaca que ainda, que é uma luta aos menos favorecidos, aos pobres e sem condições financeiras, para que todos saibam que a vida humana não é e não pode ser avaliada em pecúnia, a pessoa não vale o que tem, tendo a vida em si mesma um valor inestimável. Ela expõe as palavras do escritor Saint-Exupery: “Para nós, que compreendemos o significado da vida, os números não têm tanta importância”.

 

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