Tubarão

O fenômeno das fake news não é novidade. Notícias falsas, por má fé, ou erradas, pela ausência de uma verificação, já causaram toda ordem de problemas para pessoas, empresas, poderes, entidades e instituições. Tampouco é um privilégio do Brasil ou do momento que vivemos. Ocorrem a todo o momento ao redor do mundo, seja com maior ou menor potencial de causar prejuízos.

O que tem gerado uma percepção diferente são a multiplicidade dos assuntos transformados em notícias falsas e a rapidez com que são reproduzidas e compartilhadas, algo que está diretamente relacionado com o acesso às tecnologias de comunicação, a cada dia com mais velocidade e melhor qualidade. O assunto foi colocado em pauta durante a Jornada de Debates Fake News x True News – o valor do jornal, 12º Workshop de Integração da Associação de Diários do Interior (ADI-SC), agora com o reforço do SCPortais. O Notisul participou e debateu o assunto representado pela sua diretora, Janiffer Grace Hasstenteufel Souza.

Realizado na quinta-feira, na sede da Federação das Indústrias, em Florianópolis, o evento teve a participação de aproximadamente 200 pessoas, em sua maioria jornalistas, editores e diretores dos veículos integrados à rede ADI-SC/SCP, profissionais de comunicação de outros veículos e de outros segmentos, assessores parlamentares, advogados e estudantes de diferentes áreas. O interesse demonstrado prova a atualidade do tema e a necessidade de debate para a correção de rumos, uma vez que, de modo geral, todos têm responsabilidade no momento de escolher compartilhar ou não um conteúdo cuja veracidade não se pode garantir.

A Jornada de Debates, realizada com o apoio da ACI, da Fiesc e da Celesc, reuniu também várias autoridades. A mesa de abertura foi composta (E-D) pelo deputado Gabriel Ribeiro, representando a Assembleia Legislativa, o presidente da ADI-SC, Ámer Felix Ribeiro, o presidente da Fiesc, Glauco José Côrte, o governador Eduardo Pinho Moreira, o presidente do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-SC), desembargador Ricardo Roesler, o presidente da Associação Catarinense de Imprensa (ACI), Ademir Arnon, e o presidente da ADI-Brasil, Jedaías Belga.

O encontro foi conduzido pelo jornalista Marcelo Lula e contou ainda com a presença de outras autoridades e lideranças, a exemplo do secretário de Estado da Comunicação, Gonzalo Pereira, do ex-secretário da pasta, João Debiasi, do primeiro vice-presidente da Fiesc, Mario Cezar de Aguiar, dos deputados Esperidião Amin, federal, e João Amin, estadual, do diretor Administrativo do BRDE, Renato de Mello Vianna, do presidente do Sindicato das Agências de Propaganda (Sinapro-SC), Pedro Cherem, do presidente do Grupo RIC, Marcello Petrelli, do presidente da Adjori-SC, Miguel Gobbi, e do presidente do Grupo NSC, Mário Neves.

Todos os diretores da ADI-SC também participaram do workshop. Além de Ribeiro, os vice-presidentes Adriano Kalil (de Gestão e Finanças), Claudinei Roberton da Silva (de Expansão), Marcelo Janssen (de Novas Mídias), Rolando Christian Coelho (da Regional Leste), Dercio Rosa (da Regional Oeste), Lenoíres da Silva (presidente Institucional), e os conselheiros Quirino Loeser e Décio Alves.

“É preciso ter o público como foco”
William Waack lançou mão da própria experiência para tratar do tema fake news. Afirmou que a produção de notícias falsas não é novidade e que se trata de uma narrativa política. Ou seja, não é só uma questão de verificar se a informação é falsa ou verdadeira, mas de perceber, antes disso, as fake news como uma interpretação da realidade conforme a opinião de cada pessoa. Se fake news não é novidade, por que virou novidade? Por que isso tem preocupado tanto?

Questionou para logo em seguida dar a resposta: “A questão está na confiança que as pessoas atribuem às instituições e instâncias até agora reconhecidas como guardiãs da verdade objetiva dos fatos. Antes o público dizia é ‘verdade, porque foi publicado em tal veículo e eu confio’. Hoje, olham para o que era uma instância de reputação, mesmo que não concordassem com a opinião editorial desses veículos, e se sentem desamparadas. Não atribuem mais o mesmo respeito e confiança que antes. Este é o ponto central das fake news”, descreveu.

E isso não é resultado apenas das tecnologias da era digital, que até ampliam a dimensão do que circula como notícia, mas em grande parte é reflexo da deterioração da confiança que as pessoas atribuem ao funcionamento das democracias representativas liberais. “É um fenômeno da nossa época. O descrédito, o desencanto e o desalento são comuns às sociedades e afetam instituições, inclusive a imprensa”. O principal ativo dos grupos de comunicação, a credibilidade, agora é visto sob um olhar contestador e com muitas ressalvas.

O cenário piora pela associação à crise de funcionamento do sistema político brasileiro, cria um caldo de cultura perigoso que tem como ponto de fundo a perda de referências e, em consequência, a perda da leitura da realidade por parte de agentes políticos, grupos econômicos, empresas de comunicação. “Veículos de imprensa deixaram de ser influenciadores das redes sociais e se tornaram reféns das redes sociais. Para reverter este quadro e recuperar a condição de referência na sociedade, os veículos de comunicação  precisam ser transparentes e ter o público como foco”.

 Já durante o debate, ao ser questionado sobre o peso das fake news na definição de voto, disse acreditar que a influência será muito menor do que o projetado. “Não será o foco. Não vai decidir a eleição. O que vai definir será a capacidade deste ou daquele grupo de conseguir uma narrativa que saia de grupos restritos para alcançar outras tribos”. Ele observou que a incapacidade de conexão entre os grupos criou um clima muito mais que polarizado. “Estamos divididos, sem contato com outros grupos. Isso caracteriza uma crise estrutural”.