Duas irmãs cambojanas, com 98 e 101 anos de idade, se reencontraram na semana passada após 47 anos separadas, período em que cada uma achou que a outra tinha morrido durante os anos de terror do regime do Khmer Vermelho nos anos 70. Bun Sen, 98, também reencontrou seu irmão de 92 anos, que ela também achava que tinha morrido, segundo relatou uma ONG local.

A última vez que as irmãs tinham se visto foi em 1973. Dois anos depois, comunistas liderados por Pol Pot tomaram o controle do Camboja. O regime do Khmer Vermelho matou cerca de 2 milhões de pessoas enquanto esteve no poder, entre 1975 e 1979. Muitas famílias foram separadas no período, inclusive com crianças sendo tiradas de suas casas para serem disciplinadas pelo Estado.

Bun Sen perdeu o marido sob o regime e acabou se estabelecendo perto do notório depósito de lixo Stung Meanchey na capital cambojana, Phnom Penh. Por um longo período, ela trabalhou vasculhando o lixo, buscando materiais recicláveis para vender, e cuidando de crianças no bairro pobre.

Ela sempre falou de seu sonho de revisitar sua aldeia natal, na província de Kampong Cham, a apenas 140 quilômetros a leste da capital Phnom Penh. Mas vários fatores, incluindo a idade e a incapacidade de andar, impediram que o sonho se realizasse.

A ONG local Cambodian Children’s Fund (Fundo Cambojano para as Crianças), que dá assistência a Bun Sen desde 2004, começou então a planejar a visita. Enquanto organizava a viagem, a equipe descobriu que a irmã e o irmão de Bun Sen ainda estavam vivos e moravam na vila.

Depois de quase meio século, Bun Sen se reuniu com sua irmã mais velha, Bun Chea, e o irmão mais novo. “Deixei minha vila há muito tempo e nunca mais voltei. Sempre pensei que minhas irmãs e irmãos haviam morrido”, disse Bun Sen. “Ser capaz de abraçar minha irmã mais velha significa muito. E a primeira vez (após o reencontro) que meu irmão mais novo tocou minha mão, comecei a chorar”. 

Bun Chea, cujo marido também foi morto pelo Khmer Vermelho, deixando-a viúva com 12 filhos, disse que ela também acreditava que sua irmã mais nova estava morta. “Tivemos 13 parentes mortos por Pol Pot e pensamos que ela também tivesse sido. Faz muito tempo”, disse Bun Chea.

Agora as irmãs estão compensando o tempo perdido. Nesta semana, elas fizeram um passeio juntas pela capital. “Nós conversávamos sobre ela (Bun Sen)”, disse Bun Chea. “Mas nunca pensei que a veríamos novamente.”

As Nações Unidas trabalharam para a formação de um tribunal para julgar membros do Khmer Vermelho ainda vivos, que começou a atuar em 2009. Até hoje, três deles foram condenados: Kaing Guek Eav, que administrou um dos principais locais de repressão e tortura do regime, a prisão de Tuol Sleng; o chefe de Estado Khieu Samphan; e Nuon Chea, braço direito de Pol Pot.