A tempestade mais violenta já registrada na história de Santa Catarina com ventos acima de 150 quilômetros por hora, ondas acima de cinco metros e um prejuízo de mais de R$ 1 bilhão para o Estado. Milhares de casas foram destruídas e centenas de pessoas ficaram desabrigadas. Essa data ficou marcada na história de Santa Catarina

“Talvez nenhum dia tenha sido tão tenso, nervoso e dramático para os meteorologistas do Sul do Brasil como o 27 de março de 2004, exatamente há 10 anos no dia de hoje. Foi quando o já formado furacão Catarina ganhou muita força e se organizou de forma bastante simétrica no litoral à medida que ficava mais próxima da costa. A tempestade a cada hora era mais intensa no mar e inexistiam dados confiáveis sobre velocidade de vento pela ausência de boias. Havia um monstro no oceano, porém não se sabia qual era a sua real força. Os únicos dados de vento que vinham eram estimativas do satélite Quickscat, que estão longe de oferecer uma ideia real. Melhor indicativo se tinha pela estimativa da escala Dvorak de ciclones tropicais que conferia nas últimas horas que precederam ao landfall um número 4.5, equivalente a vento sustentado em um minuto de 77 nós ou 142 km/h. Com base nas imagens de satélite e na escala Dvorak mantivemos o alerta de furacão no dia 27 e elevamos o tom da gravidade à medida que era cada vez mais evidente que estávamos a poucas horas de situação sem precedentes”, declarou Luiz Fernando da Metsul Meteorologia.

Já o Engenheiro Agrônomo Ronaldo Coutinho do Climaterra em São Joaquim lembrou que a formação furacão foi detectado no dia 22 de Março de 2004 através de uma tríplice parceria entre o Climaterra, Ciram e Metsul.

“Todos nós [Metsul, Ciram e Climaterra], através de imagens de satélite, sabíamos que algo grave estava para acontecer já na segunda-feira (e mantivemos as informações internas até o momento em que tivemos a exata certeza de que aquilo era realmente um furacão, fomos trocando informações e relatando o caso à Defesa Civil, já na esperança de salvar vidas”, afirma.

“O Alexandre [da Metsul], sabia falar bem o inglês e entrou em contato com o NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration) no Estados Unidos e eles utilizaram os satélites deles para identificar aquilo que seria o primeiro furacão registrado no Brasil, eles utilizaram o modelo deles para prever as possíveis rotas do furacão”, conta Coutinho.

“Na quinta-feira (25) eu fui para as rádios fazer o alerta, pois tínhamos fazer algo para salvar vidas. Começamos a passar as informações para o governador do Estado. Lembro de ter ligado também para a Angela Amin (então prefeita de Florianópolis) e ela estava em Bogotá, após as informações de que a ilha poderia ser fortemente atingida a prefeita retornou já no mesmo dia. As pessoas atribuem à mim o fato de ter descoberto o Furacão Catarina, mas não foi bem assim, a detecção foi um trabalho entre o Climaterra, Metsul e Ciram. Eu apenas fui o primeiro a avisar a população de Santa Catarina para se protegerem. Porém o trabalho poderia ter sido melhor se tivéssemos o apoio da televisão, o prefeito de Içara, na época foi avisado por amigos que moravam no Estados Unidos e que assistiam um canal americano ao qual mostrava o furacão se aproximando da costa de Santa Catarina. Enquanto os próprios americanos se preocupam, a TV brasileira fazia chacota. A TV mostrou apenas uns coqueiros balançando e diziam que aquilo era um forte vento. A televisão deixou de dar a informação e ajudar a população. Foi o maior fiasco da TV brasileira”, conta Coutinho.

“A meteorologia brasileira também descartava o furacão. Nós três [Metsul, Ciram e Climaterra] ignoramos solenemente a meteorologia nacional, qualquer pessoa leiga poderia ver as imagens do satélite e deduzir que aquilo era um furacão. 99,9% das pessoas nunca viram isto, achavam que era apenas uma forte ventania. Elas não tinham noção do que era um furacão com 500 km de diâmetro ele iria varrer o litoral de Santa Catarina com ventos 140 km/h com rajadas de 200km/h à fio. Por fim o Catarina desviou a rota entre Florianópolis e Brusque e acabou atingindo o litoral sul de Santa Catarina provocando um prejuízo de cerca de 1 bilhão ao Estado”.

O furacão atingiu Santa Catarina às 23 horas do 27 de março de 2003. Assim como todo o furacão ele teve três estágios: entrada, olho e saída. O Catarina foi categorizado com F2 e influenciou o clima de Santa Catarina provocando trovoadas até Concórdia, no Oeste. 

O olho do Catarina tinha 60km de diâmetro. Para se ter uma ideia, Florianópolis inteira caberia dentro do olho.

A serra se transformou em um escudo e fez com que o furacão não avançasse sobre o estado. Por fim, o Catarina perdeu sustentação e se dissipou na cidade de São José dos Ausentes.

“Foi um dos maiores desafios na história da meteorologia… salvar vidas enquanto a televisão ironizava”, finalizou Ronaldo Coutinho.