Liliane Dias
Criciúma

Em meio à tristeza, angústia e medo que a Covid-19 tem provocado, quem não seria capaz de se apegar a qualquer tipo de esperança de que tudo possa ser diferente e que se poderia acordar vendo que tudo havia passado? Ou mesmo que pessoas, apesar de estarem em estágios avançados da doença, pudessem se recuperar e ter uma vida ainda melhor?

Como diz o ditado, ‘a fé move montanhas’, mas ela é ainda mais fortalecida quando temos um exemplo de, porque não dizer, uma graça alcançada. Uma prova de que para Deus tudo é possível está bem pertinho.

O exemplo de superação é da pediatra, dra Clarissa Inês Almeida, de 62 anos. Ela é vice-presidente da Unimed de Criciúma, onde reside, e inaugurou com a diretoria a ala de Covid-19. Em seguida foi uma das primeiras pacientes com o coronavírus e o primeiro caso grave do hospital Unimed.

No dia 20 de março, Clarissa deu entrada no hospital, onde ficou um mês. “Foram três semanas na UTI, destas, duas intubada, e uma sem respirador, mas com traqueostomia para auxiliar a respiração. Após o período na UTI, ainda estive por uma semana no quarto”, relata a médica.

A doutora conta que não viajou para fora do país e não teve contato com ninguém que chegou de viagem. Por esse motivo, a contaminação pelo coronavírus teria sido comunitária. “A única viagem que fiz foi a Concórdia, em virtude de uma reunião das presidências da Unimed de Santa Catarina. Estávamos justamente nos preparando para o enfrentamento à pandemia”, pontua.

Quando retornou, não teve sintoma. A pediatra lembra que apenas na terça-feira (17/3) começou a ter sintomas e fez o exame, porém o resultado levou três dias, confirmando a contaminação por Covid-19. “Tive diarreia, febre, mal-estar, mas falta de ar só comecei a sentir na sexta-feira (20) quando fui internada. A partir daí só piorou”.

Recuperação e perseverança
Para Clarissa, o mais triste da doença é o distanciamento da família. “Foram 30 dias, quando saí da UTI ninguém pôde ficar comigo. De lá não lembro de nada, mas quando acordei e tiraram o respirador, perguntei quantos dias tinha ficado no tubo. Quando me disseram já senti uma enorme gratidão”, recorda.

Com tudo o que passou, a pediatra está muito emotiva. “Uma pessoa que nunca ficou sem trabalhar, totalmente independente. De repente, não conseguir tomar banho, não ter movimento nenhum. Por ficar muito tempo anestesiada, perdemos a força muscular, não temos mais a mesma coordenação motora, é preciso reaprender a engolir, a andar, tudo”.

Mesmo em casa, os cuidados e atendimentos continuam. A pediatra conta que tem acompanhamento de enfermagem e fisioterapia. Os cuidados de quarentena devem permanecer, serão ainda 14 dias em isolamento. Além disso, o tratamento ainda seguirá por um longo período.

Serão oito semanas para se recuperar, fechar a traqueostomia, mas garante que após a recuperação retomará as atividades de forma gradativa. “Em 1983 cheguei em Criciúma e trabalhei sem nunca parar, sempre estive envolvida com instituições. Adoro trabalhar com pessoas, medicina e com crianças”, anima-se.

Seu marido, que também acabou sendo contaminado, ficou uma semana no hospital, mas como não teve complicações, o quadro clínico permitiu uma recuperação mais rápida e cumpriu o isolamento em casa. “Tenho dois filhos, ambos longe e não poderiam ficar em casa por conta do isolamento. O comprometimento de um com o outro, de um cuidar do outro, acredito que essa seja a maior lição que podemos tirar disso tudo”, afirma.

Gratidão
Já em casa, conta que sobreviveu graças à equipe que, além de ser muito boa e preparada, é totalmente comprometida, pois se trata de uma doença multicêntrica, ou seja, atinge muitos órgãos. “Foi extremamente grave, então renasci”, emociona-se.

A pediatra explica que o comprometimento dos profissionais de saúde é o que faz diferença. Mesmo com toda a estrutura da Unimed, com suporte de EPIs, que é extremamente cuidado e controlado, há uma exposição. “Eles expõem a própria vida para cuidar da vida dos outros”, engrandece.

“Sou muito grata à diretoria, médicos, especialistas que fizeram parte de tudo. Agradecimento especial ao doutor Leandro, Rodrigo, Gustavo e Fabio Souza, pneumologista e diretor técnico do hospital Unimed”.

Clarissa conta que também ficou extremamente sensibilizada com as correntes de orações. “Mães, pacientes, amigos, grupos de orações. Ontem (20) recebi uma linda mensagem do Padre Eduardo, do Rio Maina. Estavam fazendo lives de orações, com mais de 700 pessoas rezando o terço por mim. Agradeço a Deus cada vez mais”, enaltece.

Cuidados
Dra Clarissa afirma que se trata de uma doença muito insidiosa e de transmissão muito fácil. “Não abracei e não beijei ninguém de fora. Peguei no contato direto, pessoas não tão perto, mas a troca de documentos, canetas de uma pessoa para a outra, facilita o contágio. Tem que usar máscara, lavar as mãos, usar álcool e limpar superfícies”, alerta.

Dessa forma, ela acredita que as pessoas se protegem e protegem os que estão a sua volta. “Desde fevereiro, separei salas de espera, cartazes, máscaras, álcool, espacei os horários, mas não adianta nada liberar e as pessoas não se cuidarem”, reforça.