Em época de férias escolares, crianças e adolescentes correm para usar celulares e tablets no tempo que costumavam estar em sala de aula. Mas o excesso do uso de telas digitais está diretamente associado ao aumento do número de casos de miopia infantil, alerta a Associação Catarinense de Oftalmologia. 

Os brasileiros passam, em média, quatro horas por dia com os olhos fixos em aparelhos eletrônicos. E as consequências disso já são sentidas em clínicas de todo o país.  Segundo a Sociedade Brasileira de Oftalmologia, pela primeira vez o comportamento está se sobrepondo a genética. De cada dez casos diagnosticados de miopia, apenas um é passado de pai para filho. Os outros nove são provocados pelos hábitos do dia a dia.

Mas qual é o limite entre o passatempo saudável e o uso prejudicial desses aparelhos? De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), crianças entre 2 e 5 anos devem ficar, no máximo, de uma a  duas horas por dia diante das telas – seja celular, tablet, computador ou televisão. Para a OMS, há uma clara relação entre o aumento de casos de miopia infantil e o uso excessivo de telas digitais. “Para nossos olhos, essa exposição contínua às telas causa, além do desconforto, uma fadiga visual, que pode resultar em casos cada vez mais precoces de miopia”, alerta o médico oftalmologista João Artur Etz Junior, presidente da Associação Catarinense de Oftalmologia. 

Essa recomendação se deve ao fato de que o número de pessoas com miopia (uma doença que costuma ser identificada ainda na infância e na adolescência) está crescendo a cada ano: a estimativa é que, em 2020, 2,6 bilhões de pessoas no mundo sejam míopes – um número bem superior ao universo de 1,8 bilhão de pessoas com presbiopia, deficiência visual que costuma se manifestar após os 40 anos. 

“É preciso limitar o uso do celular, especialmente em crianças. E mesmo adultos precisam ter alguns cuidados, como descansar três minutos em cada 20 de uso das telas, para relaxar a acomodação excessiva que é um dos mecanismos envolvidos na progressão da doença”, comenta o presidente da Associação Catarinense de Oftalmologia. Nos adultos, a alta miopia está relacionada à manifestação da doença no início dos anos escolares. 

Os estudos mais recentes mostram que há maneiras de diminuir a progressão da doença:  “o uso de um colírio pode diminuir a progressão em torno de 50% a 60% dos casos dependendo da idade, do grau e de quando se inicia o tratamento, e também a exposição à luz solar associado atividades outdoor por um período de duas horas diárias – ou seja 14 horas por semana – diminuiu a progressão da doença em 20% a 25%”, destaca o dr. João Artur.

Brincar na rua é a saída

Como forma de retardar a progressão da doença, a recomendação é estimular crianças e adolescentes a fazer atividades outdoor (duas horas por dia), deixando um pouco de lado as telas digitais para relaxar os músculos oculares e ter uma exposição à luminosidade (luz solar) – um estudo recente mostrou que crianças que fizeram 14 horas semanais de atividades outdoor diminuíram a progressão da miopia em até 25%. 

“Os pais devem ter um cuidado especial com o uso dos celulares, tablets e computadores, sempre quando usar ter uma boa luminosidade, de preferência nunca usar no escuro. Hoje existem políticas de governo para modificar em escolas a exposição à luminosidade aumentando as atividades escolares outdoor, para ajudar evitar a progressão da doença”, ressalta o presidente da entidade. Para ele, as campanhas de educação em saúde ocular deverão focar primordialmente em mudanças ambientais e comportamentais.