Hoje (18) é lembrado o Dia Nacional Contra a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Um tema preocupante e digno de debates diários nas esferas educacional, social, de saúde, segurança e, sem dúvida, familiar.

Infelizmente, os números de uma classe tão vulnerável são lastimáveis. Estima-se que, a cada 24 horas, 320 crianças sejam exploradas no Brasil. E que somente sete em cada 100 casos são denunciados.

Santa Catarina registra uma média de mais de 3,8 mil notificações de violência sexual contra crianças e adolescentes por ano, o que equivale a mais de 10 ocorrências por dia.

Para o psiquiatra Cleberson José Garcia, de Capivari de Baixo, é um tema muito difícil, pois existe a figura do abusado e do abusador. A vítima, geralmente, é um ser indefeso, e o agressor alguém próximo. “A família deve observar muito. Ficar atenta sobre as atitudes das crianças e jovens, se ficam hipoativos ou agressivos, se há mudança de comportamentos. Os professores são os primeiros, na maior parte das vezes, a perceberem essas situações”, alerta.

Segundo Cleberson, a família também deve educar, dar amor. Os pais devem evitar a agressividade, porém, sem perder a autoridade. Afinal, as crianças são o espelho dos pais. Nos casos em que ficar comprovado o abuso sexual, conforme o psiquiatra, a procura por ajuda é o melhor caminho. “É necessário um acompanhamento psicólogo e de assistência social, isso tem um valor fundamental, e se precisar, ainda o apoio médico”.

Há dois tipos de abusador
São dois tipos de abusador, os que se enquadram como doentes mentais e os pervertidos, que são relacionados ao desvio de sua personalidade. Nesse último, e com maior existência, os pedófilos. “Eles sempre praticam seus crimes sexuais longe da sociedade e ocultam seu perfil porque sabem que é um crime. A maioria dos abusadores, geralmente, são pervertidos sexuais, os pedófilos”, reafirma.

No entanto, os crimes de menor índice são praticados pelos doentes mentais, os quais não sabem o que fazem, como por exemplo os esquizofrênicos em surto psicótico e alguns oligofrênicos – deficiência mental, adquirida ou congênita que afeta a capacidade intelectual.

O médico chama a atenção para o histórico do agressor. “Também ocorre muito de o abusador ter sido vítima do mesmo ato na infância. A maioria dos crimes sexuais relacionados à infância são de ordem de perversão sexual, ou seja, desvio de conduta, de personalidade, que na minha opinião é crime”, finaliza.

Abuso sexual na infância e adolescência causa marcas severas, segundo psicóloga

A psicóloga Juliana Mendes, de Tubarão, explica que as vítimas de abuso sexual podem ser afetadas de diferentes formas, e depende de fatores internos, como o grau de vulnerabilidade e resiliência da criança, e externos como recursos sociais e emocionais, e funcionamento familiar. “As consequências então podem ser leves ou graves, embora seja bem provável que impactem na saúde emocional das pessoas abusadas em várias etapas e esferas de suas vidas”, lamenta.

Alguns impactos são lembranças, sonhos traumáticos, comportamento de reconstituição e angústia nas recordações psicológicas violentas. “Outra característica é a evitação, quando a criança foge da lembrança do trauma, apresenta amnésia psicogênica e desligamento”, completa Juliana.

“Mesmo quando a criança não apresenta sintomas observáveis, não quer dizer que não sofra ou que não vá sofrer com os efeitos dessa experiência, pois provavelmente ela apresenta um sofrimento emocional muito intenso e as consequências podem estar ainda latentes”, avisa.

Perfil do abusador
O abusador, na maior parte das vezes, tem uma dinâmica perversa. Ele pode ser agressivo, manipulador, destrutivo, sádico e sente prazer com a dor alheia, não sendo capaz de criar empatia com nada e com ninguém. Mas a psicóloga alerta. “Por serem manipuladores, muitas vezes se ‘disfarçam’ de pessoas muito amáveis”.

Este tipo de personalidade (perversa), segundo Juliana, começa a se desenvolver na infância, geralmente quando se sofre abusos e maus-tratos graves. “Isso acaba transtornando a vida da criança e as leva, quando adulta, a tentar vinganças, infringindo regras e promovendo sofrimento, na tentativa de causar aos outros as mesmas dores que sofreu”.

Família precisa ficar atenta aos sinais e quem está próximo
Diante de todo esse contexto, é preciso muita atenção dos pais, com acompanhamento e vigilância, e sempre ter conhecimento da rotina do seu filho. “Conversar abertamente com a criança sobre os limites do corpo, incentivando para que ela se mantenha sempre aberta ao diálogo com os pais é fundamental”, orienta.

“Fiquem atentos aos sinais de abuso e saiba que na maioria dos casos o agressor é uma pessoa próxima, um vizinho, um conhecido da família, e muitas vezes ainda um pai, avô, professor, um tio”.

Alerta: Principais características das vítimas 
– Irritação, ansiedade, transtorno do sono
– Dores de cabeça, dificuldades de concentração
– Alterações gastrointestinais frequentes
– Rebeldia, raiva, fuga do lar
– Abuso de substâncias ilícitas
– Pensamentos suicidas
– Condutas sexualizadas ou isolamento social
– Sentimento de culpa, raiva e de diferença, além de baixa autoestima
– Introspecção ou depressão, problemas escolares, pesadelos constantes, xixi na cama e presença de comportamentos regressivos, como por exemplo, voltar a chupar o dedo.
– Outro sinal de alerta é quando a criança passa a falar abertamente sobre sexo, de forma não natural para a sua idade física e mental.

*O psiquiatra Cleberson José Garcia trabalha em Tubarão, no HNSC, no Posto de Saúde no bairro Recife e na Clínica Psicomed
*Juliana Mendes atua em um consultório no Praça Shopping, na Cidade Azul