Bom mesmo é trabalhar de qualquer lugar do mundo em algo que dá um entusiasmo danado, que você não vê a hora de começar e depende a penas de uma boa conexão com a internet. Mas será que isso é possível ou um sonho para lá de idealizado?

Bem, não resta dúvidas de que esse é o sonho de muitos jovens e adultos, principalmente dos nascidos após a década de 80, as chamadas gerações Y, Z e agora Alfa (crianças de até 9 anos de idade) que são nativos digitais, ou seja, já nasceram imersos na tecnologia.

Essa geração cresceu vendo seus pais trabalharem duro, bater cartão, levar bronca para casa sem muito tempo ou dinheiro para diversão.

Daí em diante veio um desejo de viver melhor e de fazer algo que tenha mais propósito e significado. Para eles, é inaceitável trabalhar duro para ganhar algo no fim do mês apenas para sobreviver nos fins de semana.

Mas como conseguir uma vaguinha no Google, virar blogueira ou um nômade digital (pessoas que trabalham viajando o mundo)?

Bem, sabemos que com a adesão das empresas ao digital principalmente nesse mundo pandêmico, houve um aumento das possibilidades de trabalho à distância. Mas nem sempre trabalhar remoto é sinônimo de amar o que faz, embora possibilite alguma mudança no estilo de vida.

E qual a chave então para encontrar esse match entre uma vida bem vivida e um emprego ideal? Como trabalhei por 15 anos em recursos humanos e entrevistei muitos profissionais de diversas áreas, vi gerações se relacionarem e notei essa mudança acontecendo. Vivi isso na pele, na verdade.

Depois desse tempo de muito trabalho, me vi estressada e frustrada em uma profissão que me sugava a alma, sem ver mais sentido no que eu fazia e sem ver um encaixe com a vida que eu queria e a fase em que eu estava.

Busquei o que me faltava e fiz uma virada. Hoje, como psicóloga e mentora de carreira, acompanho muitas pessoas com esse dilema e as ajudo a fazer as suas viradas. Meu trabalho se tornou muito mais significativo, leve, realizador e vantajoso, mas o caminho para chegar aqui foi construído com muitos desafios.

Obviamente não é fácil virar a chave, mas aos poucos e inclusive em tempos de vacas magras muitas pessoas estão se reinventando e achando um jeito de viver com mais propósito ou resgatando talentos escondidos. O que noto é que é preciso “desglamourizar” o “faça o que ama”.

Toda mudança em direção de um desejo requer um esforço para encontrar um novo caminho. Às vezes é preciso dar alguns passos para trás para depois dar passos novos na direção de algo melhor e maior.

Também é preciso estar disposto a sair da zona de conforto, enfrentar os próprios medos e entender que a insegurança faz parte pois a coragem vem no meio do caminho, e não antes.

Para descobrir o seu propósito precisa entender no que você é bom, quais são suas paixões, e também é necessário achar um jeito de entregar algo de valor para o outro e ganhar dinheiro com isso. É um exercício que exige esforço para se redescobrir, mas viabiliza caminhos possíveis, sem romantismo mas com muita inspiração.

Outro fato importante, principalmente para os jovens, é entender que a probabilidade de que as primeiras experiências profissionais sejam o emprego dos sonhos é muito pequena.

No começo da carreira temos pouca experiência de vida e autoconhecimento e se não houver o entendimento de que os primeiros obstáculos são aprendizado, há o risco de desistir antes da hora, perdendo a chance de se experimentar, aprender a lidar com a frustração e descobrir melhor o que gosta e o que não gosta.

Isso não quer dizer que seja impossível encontrar o trabalho dos sonhos cedo, mas claramente é mais provável conquistá-lo um pouco à frente quando já há mais condições de saber o que faz sentido e o que não.

E esse sonho não é exclusividade dos jovens. Muita gente chega em um ponto da vida e começa a se perguntar por que faz o que faz. Bate um vazio, como se a vida estivesse clamando por algo maior.

E o que fazer quando se está relativamente estável em uma carreira e um belo dia se percebe que não é o que quer fazer pelo o resto da vida?

É preciso repensar o caminho. E isso significa revisitar todos os seus valores, talentos, capacidades e descobrir um propósito que motive a ir atrás de uma mudança e te dê o foco necessário para não desistir, além de planejar os novos rumos.

Sendo assim, aos jovens, eu diria que é preciso ter calma e buscar experiências. Se você não está ainda no emprego dos sonhos, trace o caminho e persista até chegar lá, entendendo que um momento mais enfadonho, se planejado, pode ser um meio para chegar em outro objetivo.

Para a turma que já está em um ponto mais maduro da vida, eu diria, tenha calma e coragem. Porque não se reinventa a vida em 1 mês. A média de tempo para uma transição de carreira vai de 6 meses a 2 anos, às vezes mais. É preciso se estudar, aguçar a visão, se preparar para então se redirecionar.

E para todos que tem o sonho de uma vida com propósito, posso dizer que não é tão simples achar um jeito de ganhar dinheiro com algo que a gente ama, mas que iniciar uma procura vai no mínimo te levar a se sentir mais feliz no caminho e te dará mais segurança para fazer as suas escolhas, mesmo que você descubra que o melhor é ficar onde está.

Por que às vezes você só precisa ressignificar a jornada, fazendo pequenos ajustes. Outras vezes, o caminho é se transformar ou se redirecionar. Mas como você vai saber, se não começar a procurar?