Foto: Polícia Ambiental de Brotas/Divulgação

*Por Mônica Nunes – Via Comunicação Planeta

Esta história macabra tornou-se conhecida no início de novembro, quando André Valente, da ONG ARA – Amor e Respeito Animal e o Santuário Vale da Rainha – identificou o abandono de búfalos na fazenda Água Sumida, de propriedade de Luiz Augusto Pinheiro de Souza, em Brotas, no interior do estado de São Paulo. Alguns já estavam mortos, outros agonizando e outros, ainda, em estado de inanição.

Ele se uniu a outras organizações, entre elas o Santuário Vale da Rainha, de Vitor e Patrícia Favano, e a ativistas pela causa animal para prosseguir. Eles registraram as cenas de horror com drone e denunciaram o fazendeiro – que também é psicanalista, na cidade!

Em 6 de novembro, a Polícia Ambiental foi ao local para averiguar a situação. Encontrou 667 animais em situação de completo abandono e maus-tratos e 22 mortos. Na verdade, eram fêmeas e a maioria estava grávida.

De acordo com informações colhidas pelos voluntários e pela polícia, as búfalas foram inseminadas artificialmente, mas o proprietário decidiu parar de produzir mussarela de búfala e arrendar suas terras para a produção de soja e milho. A partir daí, abandonou-as sem água, sem alimento e sem cuidados, para morrerem.

Não se sabe precisar há quanto tempo elas estão nessa situação, mas os ativistas descobriram que, em algumas áreas, elas comeram as cascas das árvores para sobreviver.

A polícia investiga o caso para entender porque o proprietário preferiu matar os animais, em vez de vendê-los ou doá-los? Com um detalhe: não levou em conta os impactos ambiental e sanitário de sua decisão.

(sim, eram mais de mil búfalas – cerca de 200 já morreram -, 90% estão grávidas, então, daqui 3 meses, mais ou menos, o rebanho terá dobrado de tamanho. “Isso vai virar um problema de saúde pública”, salientou Vitor Favano, ao G1).

Parte das búfalas permaneceu solta e parte foi sendo confinada à medida que a plantação avançava na área da fazenda. As que sobreviveram fora encontradas muito debilitadas e machucadas – cheias de escaras – e algumas já não conseguiam se locomover e agonizavam. Entre estas, havia búfalas sendo comidas vivas pelos urubus atraídos pelas carcaças.

Segundo o delegado Douglas Brandão, responsável pelo caso, o fazendeiro chegou a mandar passar um trator em cima do pasto para que elas não conseguissem se alimentar. Luiz Augusto foi preso e autuado em R$ 2,133 milhões por maus-tratos. Há informações desencontradas sobre o pagamento da multa, mas, depois de pagar a fiança de R$ 10 mil, o criminoso passou a responder ao processo em liberdade.

Associação criminosa
Diante dessa situação, em 11 de novembro, o juiz Rodrigo Carlos Alves de Melo determinou que os voluntários e a prefeitura cuidassem dos animais por 15 dias, dando-lhes a tutela provisória sobre eles. E, assim, para criar melhores condições para tratar dos animais, eles montaram um acampamento e um hospital de campanha dentro da fazenda.

O mandado da Justiça também determinava que o proprietário deveria colaborar com os cuidados necessários para a reabilitação do rebanho. Caso contrário, teria que pagar multa diária de R$ 3 mil. Mas ele não apoiou o trabalho dos voluntários, e tem feito de tudo para impedi-lo. Deve apostar na impunidade.

O veterinário Maurice Gomes Vidal, do Santuário Vale da Rainha, contou ao G1, na semana passada, que o fazendeiro estava dificultando o trabalho: “Não quer emprestar os tratores, trancou a porteira e falou que a gente não vai tirar o gado de lá”. Diversas búfalas que conseguem caminhar foram manejadas para outra área, dentro da fazenda, para que possam se alimentar melhor.

O delegado de Brotas foi comunicado sobre a conduta do fazendeiro e se comprometeu a investigá-lo. “Se configurar que ele está impedindo o tratamento dos animais, nada impede de eu representar contra ele por associação criminosa“. Muito bacana a conduta das autoridades locais – polícia, delegado, prefeito -, mas a Justiça é muito morosa e as búfalas não podem esperar!

Por isso, os custos têm sido bancados pelos voluntários por meio de doações, rifas e outras ações.

Além da alimentação (são 10 a 15 toneladas de silagem, milho, sorgo, cana/dia!, de remédios e de soro (cada animal debilitado precisa de 30 litros de soro/dia!!) para combater a desnutrição, é necessário manter muitos voluntários no local para reanimar as búfalas, o que significa oferecer-lhes o básico para que possam ficar acampados ali: condições de higiene, alimentação e sono.

Administrador e capanga, presos
Até sábado (20), os voluntários mantinham um esquema de trabalho muito bem coordenado, que contribuía, visivelmente, para uma melhor avaliação da situação e também para a recuperação de muitos animais. Mas os advogados do fazendeiro interpretaram a liminar “do seu jeito” e alteraram o que havia sido decidido pela Justiça.

Limitaram a entrada na propriedade a apenas 10 pessoas por vez: entre policiais civis, veterinários e voluntários que prestariam os cuidados aos animais mais necessitados. Ora, mas, sem maquinário adequado, só para carregar um único animal debilitado são necessárias, pelo menos, dez pessoas!

Também determinaram a retirada do hospital de campanha, que foi montado dentro da fazenda pelos voluntários da ONG ARA para atender os animais de forma ininterrupta devido à gravidade do caso. Com essa decisão, os animais ficaram novamente sem água, sem alimento, sem cuidados.

“Não existe a possibilidade de cuidar dos animais sem o hospital de campanha dentro da fazenda. Então, retirando do local a infraestrutura, o trabalho fica inviável”, declarou a advogada e voluntária Antília Reis. “O proprietário quer que os veterinários e voluntários cuidem dos bichos e vão embora, mas não tem como, porque eles precisam de tratamento 24 horas”.

No sábado, voluntários organizaram protesto na praça Amador Simões, no centro de Brotas, contra a medida arbitrária. Empunhando cartazes com os dizeres SOS búfalas de Brotas e Senhora juíza queremos justiça vislumbravam sensibilizar a opinião pública e a Justiça, e chamar a atenção da imprensa. O caso inundou as redes sociais.

No final da tarde de ontem, domingo (21), devido às denúncias, o investigador policial Mario de Barros foi com sua equipe até a fazenda de Luiz Augusto, onde encontrou irregularidades – nada do que havia sido determinado pela Justiça estava sendo cumprido – e, sem encontrar o fazendeiro no local, prendeu o administrador e um capanga. Ao chegar na delegacia, gravou e publicou vídeo em seu Instagram no qual conta mais detalhes:

“Verificamos que os advogados do proprietário da fazenda fizeram uma interpretação equivocada da decisão judicial, e impediram que os representantes da ONG ARA tivessem acesso à fazenda e fizessem o tratamento das búfalas. Nossa equipe decidiu verificar o que estava acontecendo e vários abusos foram constatados”,

Segundo ele e outro investigador presente, o fazendeiro continuava obstruindo a ação da ONG com a presença do administrador e do “capanga” – um policial da reserva, aposentado. Os dois foram presos em flagrante por crime de maus-tratos. Tanto eles como o fazendeiro foram enquadrados no artigo 288 do Código Penal, “ou seja, associação criminosa”, em outras palavras, formação de quadrilha.

E o investigador acrescentou: “Por que tanta maldade? Queria entender esse nível de maldade! Entendemos que a Polícia Civil tinha que agir pra que não aconteçam mais mortes entre os animais. Os voluntários que estão lá, há cerca de dez dias, sem tomar banho, sem dormir, tentando cuidar dos animais como podem e aí vem essa interpretação equivocada… a Polícia Civil não pode ser omissa!”.

Após depoimentos, os dois detidos foram liberados, como manda a Justiça.

“Um dos maiores massacres de animais do país!”
Agora, enquanto os voluntários em campo atuam para minimizar a dor dos animais vivos e de suas crias – que, em breve, devem nascer – e ajudar a recuperá-los para evitar novas mortes, um grupo de advogados se organiza para dar andamento ao processo judicial que certamente resultará na prisão de Luiz Augusto Pinheiro de Souza.

“O inquérito da Secretaria de Segurança Pública aponta o caso como um dos maiores massacres de animais do país“, destaca, em seu Instagram, Reynaldo Velloso, advogado, biólogo e ambientalista, presidente das Comissões de Proteção e Defesa dos Animais da OAB/RJ. Ele integra a equipe de advogados de defesa dos animais juntamente com Fernanda Tochman, “uma das mais maiores advogadas criminalistas do Brasil”.

Vale ouvir a conversa entre Velloso e Patrícia (guardiã do Santuário Vale da Rainha e uma das líderes da mobilização em Brotas) realizada ontem, no Instagram, na qual falaram sobre os próximos passos e destacaram a importância de lidar com esta situação tão delicada e cruel, com muito amor.

“Agora, devemos pensar em salvar essas fêmeas e os filhotes que vêm aí. Então, se a gente tiver muito rancor, pode ficar difícil. Em contrapartida, se a gente chega lá com amor no coração, eu acho que essa é a maior força do mundo. Já passei por situações que julgávamos intransponíveis, que parecia não ter solução, como esta parece – mil e tantos animais! como vai alimentar, a logística…. Por isso é importante trabalharmos em dois grupos: um que vai buscar a justiça e o outro que vai salvar os animais. Depois que forem salvas todas as búfalas, a gente se junta!”.

A priori, o fazendeiro não abre mão dos animais – quer vê-los morrer? E, se mantiver essa postura, vai ser necessária uma autorização judicial para retirá-los da fazenda. Mas é preciso ter para onde enviá-los, até lá, como destacou Velloso.

Patrícia contou a ele que já estão sendo contatados fazendas e santuários na região que possam receber grupos de fêmeas (100 num lugar, mais 100 em outro…) em seus espaços, que se comprometam a cuidar delas. E alguns já sinalizaram positivamente. Então, a julgar por esse movimento, as búfalas de Brotas terão pra onde ir, assim que tudo for resolvido na Justiça.

Como ajudar
Caso você conheça um local bacana que poderia receber parte das búfalas, entre em contato com o perfil Búfalas de Brotas, criado no Instagram pela ONG ARA para divulgar notícias e dados bancários para doações, que revelo, aqui, para facilitar:

Banco Cora SCD 403 – Agência 0001 – conta 1372147-8 – e PIX CNPJ – 14.732.153/0001-38. Se preferir fazer PAYPAL (neste caso, para o Santuário Vale da Rainha, que repassa os valores para a ARA) anote: ahimsa@svr.org.br .Importante enviar o comprovante por inbox do perfil Búfalas de Brotas no Instagram.

O GRAD Brasil – Grupo de Resgate de Animais em Desastres foi acionado pela ARA para ajudar no resgate e tratamento das búfalas e também está com campanha de arrecadação de recursos, pelo Pix 04.085.146.0001/38, para manter a equipe composta por veterinários. A organização publicou post no Instagram para pedir doações.

O trabalho do GRAD é muito precioso (acompanhe pelo Instagram). O grupo tem ajudado a salvar milhares de animais em tragédias como as de Brumadinho, as enchentes anuais de Minas Gerais, os incêndios no Pantanal no ano passado e este ano e no Parque Estadual do Juquery, em São Paulo, em agosto.

Quem quiser se oferecer para ajudar in loco, deve entrar em contato com Adriana Greco por inbox, no mesmo perfil Búfalas de Brotas, no Instagram. Mas pense bem antes de procurá-la!

Neste momento, o que os voluntários mais precisam no acampamento e no hospital de campanha instalados na fazenda é de pessoas que atuem no suporte – alimentação das equipes e limpeza dos ambientes -, e também de mão-de-obra pesada para limpar e ajudar a transportar os animais, além de percorrer a propriedade em busca de búfalas vivas ou mortas. As distâncias entre um ou outro grupo podem ser de até 5 km.

Se você tem esse perfil, fale logo com eles! Quanto mais voluntários dispostos a colaborar com essa empreitada, mais rápido será possível resolver a situação desses animais.

Divulgar o caso e compartilhar o passo a passo de como doar e colaborar com os voluntários é uma forma de participação importante também. Afinal, a tutela das búfalas pela ARA é provisória e precisará ser renovada. É preciso fazer tudo que estiver ao nosso alcance para que esta história tenha um final menos cruel, ou o mais feliz possível.

Caso único no mundo
Para Carla Sassi, veterinária coordenadora do GRAD Brasil, este é um caso que parece único não só no Brasil, mas no mundo.

“Nunca aconteceu isso no mundo! Mais de mil animais? Quase 90% grávida? Nunca! Não há notícia de algo tão cruel, assim! Nem literatura na qual possamos nos basear, ou um caso que nos sirva de exemplo. Portanto, o que, nós do GRAD estamos fazendo é no sentido de tentar acertar, por mais que erros aconteçam”.

E finaliza: “Tem uma frase do Cortela, que eu adoro e que se aplica muito bem a todas as situações limite que vivemos: ‘Faça o teu melhor nas condições que você tem, enquanto você não tem condições melhores, para fazer melhor ainda’. É isso! Se a gente esperar as condições ideais, a gente nunca vai sair do lugar. Tem que usar as armas que a gente tem. É uma guerra, sempre, pra quem defende esta causa”.

Abaixo, reproduzo alguns registros publicados no Instagram do GRAD Brasil (sugiro que você acompanhe), que dão um pouco da dimensão do trabalho que realizam, estes dias, em Brotas. Na legenda do post, eles declaram: “Nunca imaginamos viver um desastre assim… ambiental, sanitário e, principalmente, de bem-estar animal, tamanha proporção. Cada dia é uma batalha e nossos desafios surgem o tempo todo. É manejo, alimentação, resgate, exames, justiça…. Mas nada que nos impeça de seguir firmes. Pessoas incríveis estão nessa luta também”. E eu peço: Apoie!