Marcela Monferdini, 35, sofreu com uma doença rara por quase dez anos por mau uso da lente de contato. No seu relato abaixo, ela conta como foi o processo, que serve de alerta para que as pessoas não negligenciem os cuidados com o produto: “Eu sempre usei lente de contato porque sofria com miopia. Um dia, em 2007, quando estava com 23 anos, acordei com o olho bem inchado. Joguei água achando que limpar melhoraria o problema, mas nada diminuiu o inchaço.

Passei uma semana com o problema no olho – pensando que era uma irritação – quando decidi procurar um oftalmologista. O médico achou que era herpes e recomendou remédio para tratar a doença. Porém, os sintomas não melhoravam e meu olho não deixava de doer e ficar vermelho.

Quase dois meses depois eu ainda estava com o incômodo. Fiquei 30 dias sem sair de casa, melhorei um pouco e fui curtir o Carnaval. Mas meu olho não parava de doer e procurei outro médico, que disse que eu tinha um bichinho muito chato e difícil de curar, mas não deu nenhum diagnóstico preciso. Ele receitou corticoides, o que mascarou a doença.

O problema persistia e meu olho não melhorava de jeito nenhum: coçava o tempo todo, ficava vermelho e parecia sempre que estava com areia. No meio disso tudo, já havia emagrecido doze quilos, pois não conseguia me alimentar normalmente, e adquirido sensibilidade à luz.

Um dos médicos me recomendou o uso de uma lente de contato terapêutica e no começo ela pareceu ter resolvido o problema. No entanto, depois de duas semanas, ao retirá-la no consultório, meu olho estava completamente branco. Fiquei desesperada e não acreditei no que estava acontecendo.

Depois de sete médicos e cinco meses de muita investigação, descobriram que eu estava com ceratite, uma inflamação na córnea. No meu caso, o problema foi causado pela Acanthamoeba, um protozoário encontrado na água que aderiu à lente de contato e penetrou no olho.

O médico me alertou que o diagnóstico foi feito tarde demais e disse que o problema era grave. Ele disse ainda que o parasita gostava de lugares úmidos e que usar lentes de contato em piscina, durante o banho e não higienizar direito com produtos específicos aumentam o risco do problema. Comecei a lembrar e, de fato, eu tinha pouco cuidado com a lente, mas não imaginava que poderia chegar a esse ponto.

O médico receitou um medicamento importado da Inglaterra e disse que, se não melhorasse, teria que optar pelo transplante de córnea. Fiz o tratamento por quase um ano e parecia que estava dando tudo certo, quando surgiu um pontinho preto no meu olho e comecei a piorar.

Ao me examinar, o médico foi categórico e disse que precisaria de um transplante de córnea. Entrei para a fila e consegui fazer a cirurgia em alguns dias, pois meu caso era gravíssimo. No dia seguinte, meu organismo já rejeitou a nova córnea e provocou catarata e glaucoma. Os médicos já não sabiam mais o que fazer. Estava pingando oito colírios nos olhos e sentia uma dor insuportável neles que atingia a cabeça, não tinha mais forças para nada.

Descobri na internet uma médica especialista em doenças raras de córnea e a procurei, na esperança de resolver meu problema. Na primeira visita ela já cortou todos os remédios que eu estava usando e focou em outro tratamento. Um dia, comecei a vomitar a cada seis minutos, sem parar. Mediram a pressão do meu olho e estava muito alta, a ponto de ele quase ‘explodir’. Tinha desenvolvido glaucoma novamente.

Tive que passar por um segundo transplante de córnea para tratar o glaucoma e a catarata. Depois desse procedimento, o olho rejeitou a córnea novamente. Quando tratava o glaucoma, o olho rejeitava a córnea, ficava sempre assim. Eu já estava no meu limite. Estávamos fazendo de tudo e já realizado inúmeras cirurgias, tratamento com laser, colocado pedaço de placenta, tudo. Sentia muita dor, cheguei aos 30 anos me sentindo uma fracassada.

Como a dor era insuportável, decidi tirar o olho. Como já tínhamos testado de tudo e nada deu certo, achei que essa era a melhor solução. Alguns médicos tentaram me impedir e tive que ir atrás de um laudo que mostrava que recorri a diversas técnicas, todas sem sucesso.

Após essa burocracia, autorizaram o procedimento e retirei meu olho com um cirurgião plástico ocular. Depois que tomei essa decisão, foi vida nova: prestei concurso público, terminei a faculdade, casei e pude ser feliz.

Hoje, uso uma prótese interna de polietileno e uma externa que é para fins estéticos. Embora tenha sofrido muito, o problema serviu para que eu alertasse outras pessoas da importância de cuidar e fazer o uso correto das lentes”.

O que é a doença? 

A ceratite (ou queratite) é uma inflamação da córnea, a camada transparente que protege os olhos. O problema pode ser causado por secura, lesão física ou química e micro-organismos como vírus, fungos, bactérias, protozoários, como a Acanthamoeba. O parasita é encontrado no solo, no mar, em rios e lagos, piscinas, hidromassagens e até em água encanada, segundo o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA). 

A doença provocada por ele geralmente se manifesta em indivíduos que usam lente de contato, pois ao expor o produto à água contaminada a Acanthamoeba adere a ele e depois “passa” para a córnea.

Como evitar o problema? 

Apesar de rara, a ceratite provocada pela Acanthamoeba é considerada umas das mais graves infecções de olho. Para evitar o problema é importante seguir corretamente as instruções de uso das lentes de contato. Isto é: Limpar as lentes corretamente e com produtos específicos após o uso; Substituir as lentes no tempo indicado pelo fabricante; Trocar o estojo das lentes pelo menos de três em três meses; Evitar tomar banho ou entrar na água do mar, rios, lagos, piscinas e banheiras de hidromassagem com as lentes.

Sintomas 

Os sinais são leves no começo: incômodo no olho, inchaço e vermelhidão. No entanto, evoluem de forma gradual e piorando o quadro. A pessoa começa a ficar com dores fortes nos olhos que atingem a cabeça, pálpebra inchada e sensibilidade à luz. O ideal é que o paciente procure o médico em no máximo três dias depois do surgimento dos primeiros sintomas, ou quando houver intolerância à lente de contato.

Tratamento 

Em muitos casos, ao descobrir o problema a recomendação é o paciente utilizar colírios por até quatro meses. Há ainda a opção de realizar um procedimento chamado crioterapia, que tem o objetivo de congelar e matar o parasita. Já em situações graves, como a de Marcela, os médicos optam pelo transplante de córnea. 

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Citações de Marcela

“Algumas vezes, minhas lentes tinham pontinhos pretos. Porém, como o produto para lavá-la era caro, ignorava a ‘sujeira’ e as usava mesmo assim” 

“Não tinha emprego, larguei a faculdade, tudo por causa do meu olho. Minha vida estava parada por causa do problema”.